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Archive for the ‘Crônicas’ Category

Post especial aos novos amigos

Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

84487611 Não sou de falar, sou de escrever. Alguns sabem disso. Viveria melhor nos círculos sociais e acadêmicos se tivéssemos a oportunidade de parar um instante nossas conversas para divagar por escrito, e com isso, ler o que já foi refletido. Por isso, não se sintam odiados quando recebem de mim a velha resposta de que sim, estou bem e que sim, está tudo joia.

Andar atualmente com uma cicatriz na testa me incita o preparo de uma resposta já pronta, mas a indolência que tenho a prepará-la e de ter que repeti-la, em todos os encontros, a quem me pergunta com a cara de nojo ou pesar: “o que foi isso, menino?”. Prefiro responder aborrecidamente: “nada”. O certo é que andava distraído, como tenho andado nos últimos dias, e tive a má sorte de me deparar com a quina de uma janela.

Por isso, caros, esse post é elaborado com as segundas intenções de saciar as vontades de quem perquire a internet a fim de saber qual é a desse menino. Digo isso porque deste instante em diante deparo-me com a graciosa oportunidade de que muitos gostam: novas amizades. São esses momentos, podemos perceber, que caracterizam os marcos deixados em nossas vidas. Cada grande amigo que temos representa uma fase de vida, velha ou nova, que fomos inquiridos a enfrentar. E o melhor de todas essas mudanças, quando colam grau, quando mudam de endereço, quando recebem novos projetos a serem desempenhados, bons ou maus caminhos que escolhemos, são essas recompensas que ficam para a gente.

Então, por enfrentar todas essas mudanças em um pacote só, digo aos que aqui fuçam que apesar da chatice, já dizia Mário Quintana que os amigos são nossos chatos prediletos. Também revelo falo com os olhos, alguns já sabem decifrar. Fiquem atentos para a perturbação diária de divulgações e lembretes das peças de teatro que apresentarei. A mais ruim das qualidades é que não tenho a decisão certa a tomar na ponta da língua. Sou indolente, amazonense, portanto, deixem-me pensar.

Um presente aos leitores: poema sobre os bons amigos que encontrei de Machado de Assis. A quem tiver tempo, é só clicar no link de baixo.

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CategoriasCitações, Crônicas

O Calouro Mariposa, e outras mensagens

Graças ao WordPress, é possível verificar que meu post sobre o salto de qualidade no curso de jornalismo na Ufam está com um acesso bem crescente e súbito nessa semana. Provavelmente, então, há calouros encontrando meu blog. Deixo a eles três mensagens.

Primeiro: sejam todos muito bem vindos. Se leram o post sobre as mudanças no curso de jornalismo da Ufam, já devem estar sabendo que são vocês, alunos do módulo 1, os primeiros a darem um passo muito importante para a qualidade do curso. Mas para isso, não basta esse projeto. É necessária a vigilância cotidiana desse aperfeiçoamento. Cada manhã perdida para uma viagem à universidade deve ser recompensada. Cobrem de si, da instituição e dos docentes essa recompensa. Não percam tempo. Quatro anos passa rápido. Sabemos disso, amigos.

É provável que o sistema modular aproxime o ensino de gradução no jornalismo daquilo que tivemos no Ensino Médio. Esqueçam. É uma vida nova daqui para diante. É o começo de um amadurecimento que não é somente profissional. Não estudem o jornalismo como se estuda a matemática. Fizemos a escolha por uma profissão com o intuito de vivermos prazerosamente e felizes.

Há muito ainda o que dizer. Outros poderão fazê-lo. Por isso, aproximem-se dos colegas veteranos, do Centro Acadêmico (Cucos) e não se inibam com a longa distância entre a sala de aula e o departamento. Termino aqui porque nunca fui de dar conselhos e acho que nunca escrevi um texto tão chato em toda a minha vida.

As outras duas mensagens estão abaixo. Uma dica do Cucos (o cartaz – participem), e um texto que escrevi há um tempo, pouco depois de ingressar na faculdade.

 

cucos

 

O CALOURO MARIPOSA

Renato estava dormindo antes de cair da árvore e ver-se transformado em uma horrenda mariposa. Seu corpo era tão belo quanto o de uma borboleta, só não havia apreciado suas asas velhas e enrugadas. E por uma lastimosa sorte, eram as asas que auferiam maior visibilidade.

Quando se encontrou com as outras mariposas, sentiu que deveria ter aproveitado mais a vida enquanto imaturo. Engraçado ele ter aquela visão pois, uma vez larva, ele invejava com intemperança o voar das aves e dos insetos. Renato parecia não ter noção de que aquele momento era o mais aguardado em toda a sua vida insignificante. Insignificante porque antes ele não tinha tanto a fazer sem as amplas possibilidades proporcionadas por aquelas asas.

Escolhi relatar a síntese da história de uma mariposa na falta de melhor inventividade para misturar temas como maturidade e ingresso à universidade. Quis fazê-lo em um único texto porque não há feitio que torne longa a distância entre calouro e maturidade. Usar o inseto como ilustração me surgiu por causa da leitura de A Metamorfose. Não sei ao certo qual era a intenção de Kafka ao escrever história tão bizarra, mas me imaginei quando calouro no momento em que Gregor Samsa acordou transformado em um gigantesco inseto.

Os hábitos alimentares mudaram, assim como as amizades, nossas trajetórias, entre outras coisas. Tudo isso após o ato de escolha da profissão, o primeiro da vida adulta. E como seria diferente se a escolha fosse outra – ou se permitisse que outros a fizessem. O vislumbre que ainda está guardado em minha memória emotiva desde o primeiro dia de calouro confunde-se com o medo de começar a tomar decisões. Nossas ações não são mais as mesmas quando compreendemos que, agora, somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar.

O que nos diferencia de Renato – e nos aproxima de Gregor – é o fato de que muitos demoram a perceber a metamorfose – ou talvez ainda nem a tenham sofrido. Nas salas da universidade, ainda esperam a solução dos problemas acadêmicos surgir como um fruto na árvore.

Graças a essa discussão, entendi porque muitos não conseguem adaptar-se ao meio acadêmico: é imaturidade. Procurem essas pessoas e descubram como levam suas vidas e descobrirão que não estou mentindo. A universidade deve ser vista como exercício. O vislumbre dos calouros logo será aniquilado se a universidade for compreendida de forma inequívoca, em uma unidade academicista.

Se voltar a historieta da mariposa para explicar melhor minha tese, diria que Renato logo descobriria que o voar das aves e dos insetos é um trabalho monótono, árduo e enfadonho. Mas é somente por meio dele que Renato descobriria os caminhos adequados para o seu bem-estar. E no final, vai adorar ter a capacidade de voar e ser invejado pelos lagartos.

CategoriasCrônicas, Eventos

Não perca: barbárie e espetáculos do mundo moderno!!!

28 Outubro 2008 Clayton Nobre 3 comentários

Certo dia, os transeuntes do Centro da cidade de Manaus depararam-se com uma obra de arte que circulou a Epaminondas até a Eduardo Ribeiro, já próximo da Sete de Setembro. A notícia saiu no jornal e foi lida – pude perceber – com muito entusiasmo e alegria pelas donas de casa e vizinhanças.

Não se trata de passeata, comício, cortejo teatral ou coisa parecida. Uma senhora levava em uma das mãos uma sacola com as compras do dia. Desculpe o leitor por caracterizar o fato como obra de arte. Não é ironia ou deboche. Mas parecia cena de cinema ou de um livro de Saramago quando um rapaz passou correndo, furtou a sacola da mulher e foi perseguido por dezenas de homens pelas ruas do Centro. O propósito parecia muito simples. A indignação é clara quando se trata de um assalto em lugar onde se paga para caminhar com segurança. Parecia por isso que todos se sentiam como uma multidão diante de uma pênalti. Todos com a mesma esperança e o mesmo objetivo, fossem os homens que corriam atrás do assaltante, fossem as senhoras que protegiam seus filhos e sacolas e gritavam “Ladrão, ladrão!”

Para outra pessoa, parecia ter bastado recuperar o objeto roubado, devolvê-lo à mulher e chamar uma viatura da polícia. Mas isso não era suficiente para a multidão de torcedores amazonenses que estavam lá apreciando a obra de arte, reunidos, furiosos, tencionados a fazer justiça com as próprias mãos. Chutes, pontapés, sangue, sangue, sangue… A platéia vibrava.

O mesmo destino os outros, em frente às seus aparelhos de tevê, queriam que tivesse Lindemberg após sua confusão amorosa, antes de balear duas meninas inocentes após um seqüestro de mais de cem horas. O mundo hoje, que perde a confiança nos detentores do poder e na Justiça, sente-se desabrigada. José Saramago já afirmou ter medo do dia em que o mundo se revelasse como ele realmente é, se todos descobríssemos o que somos verdadeiramente. A verdade, leitor, é que você faz parte da mesma barbárie de um mundo moderno contaminado. Ainda bem que não estamos cegos.

CategoriasCrônicas

Não ser, o conflito da consciência

Hamlet

Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Página,

Desde já queria expressar minhas desculpas pelo espaço de tempo que levei para escrever essas frases. Passei por um tempo em um conflito de consciência, dei um salto no vazio, quase optei pela morte tal qual Hamlet e me entreguei ao que sou – tal qual o queria ter feito. Presenteio-a, como um pedido de perdão, essos versos de Shakespeare.

O dramaturgo deixou um desafio para a humanidade quando lançou Hamlet. O homem, quando angustiado, torna a dicotomia ser ou não ser tão banal quanto as frases mais tolas ditas nas telenovelas ou em outros programas de TV. A verdade é que a fronteira entre o ser e o não ser nunca encontrou uma resposta que pudesse instigar reação contrária.

Você sabe, página, sou adepto daqueles que acreditam que a leitura ou apreciação de alguma manifestação artística é um ato mais pessoal que social, ou plural. Sou adepto daqueles que não precisam ler a biografia do autor do livro para conferir sua obra. Acredito na relação que criamos entre nós mesmos, nessa descoberta interior. É isso que permite que não sejamos a mesma pessoa após lermos um livro. Por isso as discussões chatas sobre literatura.

Ainda assim, crio um espaço agora para fazer essa discussão sobre o não-ser de Hamlet. Hoje, quando leio os versos acima, crio uma reflexão diferente daquela que tive quando li Shakespeare pela primeira vez. E certamente o será diferente daqui a um tempo breve. Mas, repito, é uma reflexão pessoal, que não merece servir de argumento para encontrar respostas que não existem.

Todos os homens, se vivem na modernidade, devem passar por uma fase de vida um pouco “Hamlet”. O príncipe passou por essa angústia após ser ordenado pelo fantasma do pai a vingar sua morte, fazendo o que é hábito de qualquer bom cidadão dinamarquês àquela época. O ser ou não ser de Hamlet era a dúvida sobre fazer o que deveria ser feito ou morrer. Esse é o tormento que sentimos hoje. A todo momento somos obrigados a fazer escolhas e muitas delas nos instiga a desvendar nosso “eu” ainda não descoberto, obedecendo a ele ou às mazelas da carne, como diria Shakespeare.

Vivencio a dúvida hoje, por isso a reflexão. Chega um momento, percebemos que nos perdemos de nós mesmos. Chega um momento, esquecemos quem somos e como agiríamos em determinados conflitos. Pior, chega um momento em que agimos sob um poder coercitivo invisível que nos obriga a seguir um caminho que inconscientemente não escolhemos. Apesar de invisível, não é difícil saber de trata esse poder invisível. Essas ações que fazemos é que fazem parte do nosso não-ser. É hora de descobrir o que somos e esquecer o que não somos tarefa difícil para quem vive nas metrópoles.

Por isso, página, repito um recado que já deixei aqui para universidade, para o trabalho, aos afazeres, aos prazos e leituras obrigatórias: deixem-me ser.

Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?