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Novo curso de jornalismo na Ufam

17 Dezembro 2008 Clayton Nobre 4 comentários

PROFESSORES SE PREPARAM PARA UM SALTO DE QUALIDADE

Os estudantes que ingressarem no curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) no ano de 2009 deverão entrar na academia com o pé direito. Os futuros calouros de jornalismo serão os primeiros matriculados no novo projeto pedagógico do curso, com estrutura curricular atualizada, entre outras novidades. Uma comemoração que não é só deles, mas também dos professores, egressos, finalistas e, muito em breve, da sociedade.

A notícia pareceu não ter chocado tanto de felicidade os outros professores como me chocou em reunião do Departamento de Comunicação Social esta semana, quando o professor doutor Gilson Monteiro entregou a estrutura com as primeiras disciplinas. Colegas de classe sabem que a batalha por um novo currículo não foi tão simples quanto provavelmente imaginarão os futuros calouros. Foram necessárias muitas reuniões. Algumas lotadas, outras esvaziadas. Muitos ataques, opiniões fortes, fracas. Um grupo de alunos acompanhando de perto toda a elaboração do projeto, dando pitacos. Outro grupo observando, de longe, e perguntando a todo instante se ia dar certo, se valia a pena, quando ia começar, “ano que vem?”, “cadê?”, “isso vai demorar?”.

O projeto pedagógico não será aplicado integralmente no próximo ano, mas o primeiro período já será no sistema modular. As disciplinas são:

Oficina de Leitura e Produção de Textos I,

Métodos e Técnicas do Estudo e da Pesquisa Científica,

Fundamentos de Fotografia e Imagem,

Sociologia da Comunicação,

Planejamento Visual, Editoração Eletrônica e Webdesign e

Tópicos Especiais em Jornalismo.

O agrupamento das disciplinas em um módulo possibilita maior interdisciplinaridade e avaliação constante do exercício tanto de ensino como de aprendizagem. Na prática, os professores do módulo trabalharão juntos na elaboração das ementas, planos das aulas e agenda de avaliações para que as disciplinas funcionem em conjunto, e não em confronto.

A nova idéia provocará – esperamos – uma melhoria no método de ensino de alguns professores. Trabalhando em conjunto, muitos atos contrários à boa aprendizagem serão inibidos. Será mais fácil  verificar se os professores seguem o plano de curso proposto e se suas aulas são compreendidas. Os alunos ganham, mas precisam ter cautela. Como nas estruturas de Ensino Médio, eles precisarão ser aprovados no módulo inteiro para matricular-se no próximo. Um ponto que pode levantar discórdias e causar problemas, mas, de fato, é útil e compreensível.

Alunos do primeiro período, então, já terão contato direto com disciplinas da área do jornalismo e com os professores experientes da lista de docentes do curso: Ivânia Vieira, Narciso Lobo, João Bosco e Tom Zé. Haverá ainda a contratação de um professor substituto, que irá fazer parte da nova idéia.

O sucesso significa bons resultados por uma série de motivos. Também não é difícil apontar as desvantagens, mas fico contente em declarar que, por parte dos professores de Jornalismo, há uma grande esperança que a idéia dê certo. É um salto na qualidade do ensino da profissão.

Permitam-me agora fazer uma digressão pessoal. Esse é o fato que precisava ter acontecido antes de eu finalizar esse curso. Deixo na universidade um mínimo de contribuição e uma vontade muito grande que alunos mais novos tenham momentos ainda melhores que esses que eu tive na academia, com todos os contratempos e felicidades. Ficarei com muita inveja dessa nova turma. Mas, alguns anos mais tarde, estarei comemorando o fato de ter presenciado, ainda que nos últimos instantes, a efetivação dessa batalha.

CategoriasArtigos, Maloca Digital

Visceralidade no Teatro Amazonas

serpente

Quem conhece a dramaturgia de Nelson Rodrigues, entende a aplicabilidade da palavra visceral ao título dessa pequena resenha. Quem não conhece, vai ter a oportunidade amanhã, terça-feira, 21. O grupo de teatro Apareceu a Margarida levará ao palco do Teatro Amazonas, às 18h, a montagem da peça A Serpente, que abriu o V Festival de Teatro da Amazônia este ano. A entrada é gratuita e restrita aos adultos.

A trama de A Serpente envolve duas irmãs com um amor tão recíproco que as fez celebrar um pacto de morte e casarem-se no mesmo matrimônio. Na cena de abertura, Lígia, uma das irmãs – interpretada por Vanessa Pimentel, indicada ao prêmio de Melhor Atriz – é abandonada pelo marido sem que o ato sexual fosse consumado. Desesperada, ela incita o suicídio até que a irmã, Guida, lhe oferece o próprio marido durante uma noite. O motivo da oferta é uma interrogação que perpassa todo o espetáculo e instiga respostas que incluem, inclusive, uma provável homossexualidade.

Enganam-se aqueles que dizem que é a primeira montagem de Nelson Rodrigues em Manaus. Lembremo-nos de Os Sete Gatinhos, cuja encenação dividiu opiniões entre os que prestigiaram. Mas a memória falha é perdoável quando tentamos divulgar A Serpente em Manaus. Trata-se – para críticos como Sábato Magaldi – da peça mais audaz de Nelson Rodrigues. O impacto de um espetáculo rodrigueano, com todas as suas visceralidades, nos palcos amazonenses pode ter sido o que mais instigou a ansiedade no grupo Apareceu a Margarida.

Em relação a esse assunto, Chico Cardoso, diretor da peça, disse ter ficado surpreso com a recepção do espetáculo no festival de teatro. O motivo foram as risadas constantes do público. Michel Guerrero, diretor do grupo e um dos atores de A Serpente, acentuou o fato de que a última comédia do Apareceu a Margarida ainda estaria na memória do público. Trata-se de A Herança Maldita de Mercedita de La Cruz, que o grupo apresenta constantemente desde a sua estréia há mais de um ano. Outras falas no debate do festival propuseram que a direção do espetáculo escolhesse uma linha a ser seguida.

Muitas considerações podem ainda ser feitas, mas é bom lembrar que sempre é esperado do público uma apresentação “lugar-comum” de qualquer peça de teatro que seja divulgado em Manaus. Por isso, talvez, o estúpido fato de muitas mães levarem seus filhos pequenos para assistir Nelson Rodrigues. Fatos estranhos já haviam acontecido antes quando o grupo Arte & Fato apresentava As Damas do Apocalypse. As cenas de lesbianismo pareciam show de circo por conta de algumas gargalhadas.

A Serpente não é lugar-comum. É uma peça que tem o sexo como cerne de toda a trama. Sábato Magaldi, em uma de suas críticas costumeiras de Nelson, afirma que “no tratamento do sexo, Nelson nunca se mostrou tão ousado. A peça devassa a intimidade do casal e suas consequências são trazidas ao diálogo”. O grupo topou fazer um desafio bastante oportuno ao trazer a Manaus uma peça com uma trama de Nelson Rodrigues. Merecem palmas as companhias que tencionam trazer aos amazonenses as peças e os autores de quem eles sempre ouviram falar mas nunca tiveram a oportunidade de conhecer.

CategoriasArtigos, Eventos

Conspirações do Festival de Teatro

5 Outubro 2008 Clayton Nobre 1 comentário

Os artistas amazonenses vão ter que tomar banho de sal grosso para participar do V Festival de Teatro da Amazônia, que começa amanhã. A prevenção deve ser feita por conta de algumas notícias tristes que circulam essa edição do festival, a começar pelo trabalho da curadoria.

Foram mais de quarenta inscrições de peças teatrais para as mostras competitivas infantil e adulta de diversas companhias e grupos da região Norte. Destas, somente as inscrições dos grupos locais, de Manaus, foram selecionadas. Não perdem somente nossos teatreiros vizinhos, mas perde a categoria local. O grupo Baião de Dois tirou ótimos proveitos, esse ano, dos festivais no Acre e em Rondônia por conta da integração e bate-papo sobre nossas diversas linguagens, suas similaridades e diferenças, independente da excelência artística ou não dos espetáculos. Tudo era ponto de discussão em nossos debates.

Para muitos artistas – que ficaram de fora da seleção e para outros que nem mesmo se inscreveram – o resultado não surpreende. As discussões pela internet, por meio do grupo de discussão on-line Fórum Permanente de Teatro da Região Norte, estão acaloradas e muitos acreditam num complô organizado pela Federação de Teatro do Amazonas (Fetam) e Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Como membro da Fetam – afastado da organização deste festival – e amante de estudos sobre comunicação, posso indagar que muitas teorias conspiratórias são criadas a partir dessas discussões pela internet. Essa rede começa a ficar especialista no assunto.

 

sextascrônicas

blog do artista Marcelo Perez, de Roraima. O diretor diz que de Amazônia, o festival não tem nada.

 

forum

Artistas da região expressam suas opiniões pela Internet

 

Entretanto, não podemos negar que alguma coisa muito estranha ocorre nos bastidores da SEC e de outras secretarias do órgão público do Estado. Começo a imaginar uma teoria conspiratória que envolve Omar Aziz e campanha eleitoral – não posso passar disso, porque internet é fogo! A verdade é que o investimento para teatro esse ano foi pouco, sobretudo neste festival. A agenda cultural da cidade começou tardia, a mostra paralela do festival foi cancelada e o dinheiro para produção dos espetáculos concorrentes ainda não chegou aos bolsos dos grupos. O festival começa amanhã.

Mas, para quem não se interessa nas picuinhas, juntem-se aos bons e prestigiem o que só pode ser mesmo uma festa. A abertura do festival será amanhã, às 17h, no Teatro da Instalação, com a apresentação da peça vencedora da edição passada: O Que Era e o Que Não Deveria Ser, da Cia Vitória Régia. A mostra competitiva começa às 20h, no Teatro Amazonas. E segue todos os dias nesse horário com peças adultas, e às 10h da manhã com peças infantis. Tudo no Teatro Amazonas ao preço de R$10 e meia R$5.

Abaixo, a programação:

 

06.10 (Segunda)

20h – A SERPENTE, Cia de Teatro Apareceu a Margarida

 

07.10 (Terça)

10h – ANGATU – A ARVORÉ MILENAR, Grupo de Teatro e Dança Origem

20h – CARMEM DE LA ZONE – A LENDA URBANA, Grupo de Teatro Azuarte

 

08.10 (Quarta)

10h – AS DESVENTURAS DE DONA FURUSTRECA, Cia de Teatro ArtBrasil

20h – YEBÁ BURÔH – A INDIA VELHA DO UNIVERSO, Grupo de Repertório Arte & Fato

 

09.10 (Quinta)

10h – A HISTÓRIA DE TONY E CLÓVIS, Grupo de Teatro Gato Carcará

20h – AS MIL E UMA NOITES, Teatro Experimental do SESC

 

10.10 (Sexta)

10h – LE VAM VUM, Fundação Leon Dennis

20h – NÓS ATADOS – A Rã Qi Ri

 

11.10 (Sábado)

10h – O REIZINHO MANDÃO, Cia de Teatro Língua de Trapo

20h – COQUETEL MOLIERE, Grupo Baião de Dois

 

12.10 (Domingo)

10h – O PIERRÔ APAIXONADO, Cia de Teatro Metamorfose

20h – O AUTO DO REI LEAL, Cia das Idéias

 

13.10 (Segunda)

10h – O MENINO SONHADOR, Fabiane Moraes Araújo

20h – ANTÍGONA, Associação Amazônia Arte Mythos

 

14.10 (Terça)

10h – O LEITEIRO E A MENINA NOITE, Grupo de Repertório Art & Fato

20h – CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO

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O Marinheiro no Teatro Amazonas

11 Agosto 2008 Clayton Nobre 1 comentário

Marinheiro_Sesc_011

Outro dia dissertei aqui sobre emoção. Esse é o desafio do novo grupo de teatro amazonense que estará estreando o espetáculo “O Marinheiro”, amanhã, 12, às 18h, na abertura do projeto Terças No Palco do Teatro Amazonas. O grupo é o Cacos de Teatro, criado com o intuito de pesquisar novas propostas para o fazer teatral.

“O Marinheiro” é a única peça de teatro escrita pelo poeta Fernando Pessoa. A proposta do autor é fazer um drama estático, que o grupo inverteu para um linguagem oposta e que merece ser apreciada amanhã. No drama, três mulheres (duas, na peça amazonense), acompanhadas de um cadáver, falam sobre sonhos e morte sob a iminência desesperadora do nascer do sol. Fernando Pessoa aproveita a poesia dramatúrgica para referir-se a seu processo de criação literária, como a criação dos heterônimos e aquela angústia um pouco aristotélica de querer desvendar as questões do mundo.

Fazia parte do processo de montagem do espetáculo a apresentação de ensaios abertos, que podiam ser conferidos na Universidade Federal do Amazonas e no Sesc. A idéia já está se tornando hábito entre os grupos, por mais que parte do público não saiba definir um ensaio aberto de uma apresentação normal, uma vez que nenhum espetáculo está pronto. Mas as sugestões, críticas, elogios, questões sobre voz, iluminação e trilha sonora – bastante discutidas – ficaram para a reflexão do grupo.

O resultado estará em cena na terça-feira. Quem assina a encenação de “O Marinheiro” é Dyego Monnzaho e Taciano Soares, que também interpretam as mulheres da peça. O espetáculo foi contemplado com o edital Proarte 2007, da Secretaria Estadual de Cultura, de incentivo. Vale a pena conferir.

Meninos, merda pra vocês!

Ah,

Peguei a foto do blog do grupo. Me informem os créditos!!

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Eu quero é botar o meu bloco na rua

torturas.

Quem precisou passar na Praça das Três Caixas D’Água, em Porto Velho, na semana passada, encontrou um furdunço. Era esse um dos objetivos do festival de teatro que acontecia lá: fazer um furdunço na capital rondoniense, divertindo as pessoas e propiciando momentos oportunos de fuga de rotina. A notar pela receptividade do público, o carinho, as risadas e o dinheiro depositado no chapéu no final dos espetáculos, é possível afirmar que os nortistas precisavam desse espaço dentro de seus afazeres.

A festividade fazia parte da programação do “Amazônia Encena na Rua”, a primeira edição do festival de teatro de rua organizado pelo grupo teatral O Imaginário, de Porto Velho, realizado entre os dias 23 e 27 de julho. Participaram cinco grupos de teatro, vindos do Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Rio de Janeiro.

Havia um tempo, Manaus não precisava desse tipo de festividade para fazer teatro na rua. A necessidade de comunicar, desabafar, falar, essa angústia que todos temos para fazer alguma coisa, de difundir um pensamento, de mobilizar as pessoas, de conscientizar, essa necessidade o teatro cumpria aqui nas ruas de Manaus. Alguns fazem ainda, muito embora não chamemos de teatro. Mas é arte. A arte de reunir carteiros e fazer panelaço no meio da rua, de parar nos sinais de trânsito e chamar para o combate à violência, apitar os carros, lavar entrada de assembléia.

No encerramento do Amazônia Encena na Rua, a idéia era fazer uma invasão nas praças. Todos com roupas caracterizadas, gritando, apitando, incomodando de verdade, chamando atenção para algo que acontecia, para algo que acontece aí, na sua frente e você não vê. O teatro de rua é transgressor, não conhece as regras se não forem de pura cidadania. O teatro incomoda, cutuca. Assim era para ser em Porto Velho, e as pessoas sorriam e demonstravam que precisavam mesmo da gritaria.

A invasão precisava ser feita em outra praça, que esconde no meio do barro a trilha da Madeira Mamoré, entregue aos cachorros, coberta de lama e poeira. A ferrugem do trem tinha o mesmo aspecto da merdeira que cobria o chão de todo o local, caracterizando bem o modo de vida dos trabalhadores que morriam para que aquilo estivesse, hoje, funcionando. O mínimo de manifestação que havia sido feito pelos rondonienses foi Bailarinacalado, me falaram, por uma tropa militar armada na praça comandada pelos detentores do poder público de Porto Velho. Em regime autoritário, o teatro de rua resistia. É tempo de redemocratização e algo cala a boca dos artistas.

Agora, um parágrafo final dedicado à bailarina das praças de Rondônia, que só tem a boca calada pelos olhares ignorantes que passam pelas ruas de Porto Velho. Queiramos todos nós ter um pouquinho dessa loucura.

PS1.: Bethânia, valeu pela foto da peça…

PS2.: Sêo Eduardo, vai comer sabão!

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