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Archive for Agosto, 2009

Os picolezeiros e outros possíveis sobreviventes do apocalipse

20 Agosto 2009 Clayton Nobre 4 comentários

Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

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Um dia o amazonense vai ser cobaia de alguma experiência intergaláctica, sendo a única espécie humana da Terra imune aos efeitos do aquecimento global. A tese não é minha. É de Márcio Souza, em Fim do Terceiro Mundo, salve engano. Outro dia escutei teorias conspiratórias não tão esdrúxulas em roda de conversa em meio a três ventiladores – um deles já quebrado: Manaus sofrerá, muito breve, impacto parecido com o boom da Zona Franca. Em vez de imigração, o contrário.

Se no início do verão deste ano, o amazonense já não resiste os cérebros em banho-maria, daqui a um tempo haverá uma fuga em massa. A elite manauara é a primeira a escapar, naturalmente. E se não houvesse as possibilidades de uma fuga em massa, se ficássemos aqui presos e ameaçados pelo ardor do aquecimento, então seria a elite amazonense a primeira a cair morta. Digo o motivo, mas antes alerto para as teorias preconceituosas. E também afirmo que gosto de generalizar e não me refiro, neste post, a família e amigos, de quem nunca deixei falarem mal.

Vivo atualmente a experiência de quem troca a rotina de um morador do Centro pelo da Cidade Nova. Sim, literalmente. O esforço para correr pelo assento no ônibus foi trocado pela tentativa, na maioria das vezes vã, de empurrar os passageiros da escada a fim de não ter o pé guilhotinado pela porta de saída. E por isso digo que a alta classe não é imune ao sofrimento, porque aquele pessoal da escada, suados e esbaforidos, soltava risadas de alegria.

Enfrentar a viagem que muitos trabalhadores enfrentam no seu cotidiano exige deles uma paz de espírito incalculável, que buscam quando sobem as escadas e quando começam o expediente. Daí percebo que esses probleminhas da vida são tão meus quanto do Amazonino Mendes. Quando se ignoram os infortúnios de uma viagem maldita, começamos a perceber algumas figuras esquisitas que nos circundam, figurinos das Índias superelaborados, velhinhas apressadas, conversas ao vento, gente tão divertida que parece imune a sofrimento.

Os picolezeiros do fim de tarde dão aula de criatividade. Talvez esses sejam os últimos sobreviventes do fim do mundo. Ontem, o da rota do Manoa, confessou sua indolência: “vocês já me conhecem, eu tô cansado, não preciso falar mais nada. Resumindo, esse é o melhor picolé da cidade de Manaus”. Vendeu mais de dez. Outro, da rota pro bairro Amazonino Mendes, para certificar o cliente da qualidade do picolé, avalia o produto apontando-o para a luz, como se fosse nota de 100 reais. “Esse tá bom!”. Vendeu mais que o outro. Me diverte o com sotaque castellano. Ele vende balas e caneta multicolorida: “Usted escribe azul, negro y rojo, pero pagó solamente un real. Relámpago de la promoción”. Nos acentos, maioria dos passageiros concentrada na leitura do jornal, fenômeno que não se vê nos ônibus rumo à universidade.

Apresentar peça de teatro na feira da Eduardo Ribeiro é desafio a qualquer artista que se alimenta da recepção do público. Dondocas que por lá andam não param de reclamar do próprio suor e fingem que não veem os espetáculos de rua, ali na sua frente, a fim de não serem importunadas. Cito de novo Márcio Souza, para quem a elite amazonense está longe de entender Hamlet. Em vez disso, entende a linguagem do Shopping Center, e sua atenção está calibrada pelo tempo de informação que a televisão bombardeia. Esses, digo eu, são os sofredores de nossa cidade, os primeiros a serem derretidos, escorrendo nas lamas de um planeta em pleno apocalipse.

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Post especial aos novos amigos

Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

84487611 Não sou de falar, sou de escrever. Alguns sabem disso. Viveria melhor nos círculos sociais e acadêmicos se tivéssemos a oportunidade de parar um instante nossas conversas para divagar por escrito, e com isso, ler o que já foi refletido. Por isso, não se sintam odiados quando recebem de mim a velha resposta de que sim, estou bem e que sim, está tudo joia.

Andar atualmente com uma cicatriz na testa me incita o preparo de uma resposta já pronta, mas a indolência que tenho a prepará-la e de ter que repeti-la, em todos os encontros, a quem me pergunta com a cara de nojo ou pesar: “o que foi isso, menino?”. Prefiro responder aborrecidamente: “nada”. O certo é que andava distraído, como tenho andado nos últimos dias, e tive a má sorte de me deparar com a quina de uma janela.

Por isso, caros, esse post é elaborado com as segundas intenções de saciar as vontades de quem perquire a internet a fim de saber qual é a desse menino. Digo isso porque deste instante em diante deparo-me com a graciosa oportunidade de que muitos gostam: novas amizades. São esses momentos, podemos perceber, que caracterizam os marcos deixados em nossas vidas. Cada grande amigo que temos representa uma fase de vida, velha ou nova, que fomos inquiridos a enfrentar. E o melhor de todas essas mudanças, quando colam grau, quando mudam de endereço, quando recebem novos projetos a serem desempenhados, bons ou maus caminhos que escolhemos, são essas recompensas que ficam para a gente.

Então, por enfrentar todas essas mudanças em um pacote só, digo aos que aqui fuçam que apesar da chatice, já dizia Mário Quintana que os amigos são nossos chatos prediletos. Também revelo falo com os olhos, alguns já sabem decifrar. Fiquem atentos para a perturbação diária de divulgações e lembretes das peças de teatro que apresentarei. A mais ruim das qualidades é que não tenho a decisão certa a tomar na ponta da língua. Sou indolente, amazonense, portanto, deixem-me pensar.

Um presente aos leitores: poema sobre os bons amigos que encontrei de Machado de Assis. A quem tiver tempo, é só clicar no link de baixo.

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