Entre sectos, barbies e vampiros, venceu a Márcia
Àqueles que ainda desconfiam que a universidade não é um mundo mitológico, de onde surgem as ideias complexas e metas de vida que nunca usaremos em nossa existência, peço para fazer uma rápida análise desse último processo eleitoral pelo qual passou a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Mais de dez mil eleitores, em um universo de 28 mil pessoas aptas a votar, interromperam suas atividades ontem para exercer seu direito ao voto ante as urnas eletrônicas distribuídas na Ufam. Parte dessas pessoas deixou para mais tarde a tarefa tediosa e habitual de manter a máquina acadêmica. Os sectos aproveitaram suas últimas oportunidades de campanha para acicatar os calouros e os indecisos.
Os transeuntes, coitados desprovidos de partidarismos, observavam de longe a transformação do ambiente universitário numa Cidade de Deus às vésperas da eleição petista. Estes não conseguiam ao menos seu direito de desfilar pela instituição sem ter colado em suas roupas os adesivinhos de bárbie amazônica e sol de bundinha.
Uma professora ontem, ao meu lado, esforçava-se na tentativa de conceder uma entrevista à imprensa, desviando a atenção das vaias alienantes e gargalhadas debochadas. Mais cedo, a comissão eleitoral implorava aos desavisados nos mega-fones, o cumprimento do regimento.
Não adianta meus caros. Já suspeitava de que a democracia é uma construção mitológica de esquerdistas e neoliberais. Agora confirmo que também aquelas molduras douradas de missão/visão que vemos nas paredes da universidade não passam de cercaduras. Na comemoração de seus 100 anos, a Ufam prova que é lendária, e legendária.
Vivo na universidade o mesmo estorvo do meio artístico. Tudo o que aprendemos de ruim, nos debates nas salas jurássicas da universidade, sobre as corruptelas, sobre as pressões ideológicas de veículos, partidos e políticos, todos os reclamos que fazemos sobre as eleições municipais, estaduais, federais, vemos acontecer à nossa frente no ambiente acadêmico.
Não adiantam os argumentos, ou as aulas de filosofias e teorias sobre a reflexão crítica. Vence a eleição quem ganha no grito – e quem chama partidários para gritar mais alto. O problema é que até agora os acadêmicos não sabem como funciona uma gestão administrativa acadêmica. Pensam que elegem o novo reitor ou a reitora, como elegeram o Amazonino Mendes, o Serafim Corrêa, o Eduardo Braga.
Vi mais nessa eleição que na anterior. Houve cultos, vampirismos, apelos, PC do B x PSTU, dedo na cara e uma comissão eleitoral cuja comandante é vilã de novela mexicana: mesmo quando ausente deste mundo perespiritual, daria trabalho até a policiais, que, fatigados, teriam de enumerar uma lista interminável de suspeitos. (Rebusquei as palavras para não fazer apologia).
O grito mais alto desta última eleição foi o berro feminino. E por pouco. Menos de 1% do eleitorado universitário determinou a vitória para a candidata Márcia Perales. Vamos averiguar se o mesmo secto usará seu berrafones e adesivos para rezingar na sala de reitoria na busca de seus direitos e cargos. Esperamos que não seja necessário.

Meus mais do que merecidos parabéns pelo interessantíssimo texto. Único. Fiquei boquiaberta com essa situação também.
Passei só pra tirar o chapéu….
Boquiaberto…