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Archive for 5 Março 2009

O Calouro Mariposa, e outras mensagens

Graças ao WordPress, é possível verificar que meu post sobre o salto de qualidade no curso de jornalismo na Ufam está com um acesso bem crescente e súbito nessa semana. Provavelmente, então, há calouros encontrando meu blog. Deixo a eles três mensagens.

Primeiro: sejam todos muito bem vindos. Se leram o post sobre as mudanças no curso de jornalismo da Ufam, já devem estar sabendo que são vocês, alunos do módulo 1, os primeiros a darem um passo muito importante para a qualidade do curso. Mas para isso, não basta esse projeto. É necessária a vigilância cotidiana desse aperfeiçoamento. Cada manhã perdida para uma viagem à universidade deve ser recompensada. Cobrem de si, da instituição e dos docentes essa recompensa. Não percam tempo. Quatro anos passa rápido. Sabemos disso, amigos.

É provável que o sistema modular aproxime o ensino de gradução no jornalismo daquilo que tivemos no Ensino Médio. Esqueçam. É uma vida nova daqui para diante. É o começo de um amadurecimento que não é somente profissional. Não estudem o jornalismo como se estuda a matemática. Fizemos a escolha por uma profissão com o intuito de vivermos prazerosamente e felizes.

Há muito ainda o que dizer. Outros poderão fazê-lo. Por isso, aproximem-se dos colegas veteranos, do Centro Acadêmico (Cucos) e não se inibam com a longa distância entre a sala de aula e o departamento. Termino aqui porque nunca fui de dar conselhos e acho que nunca escrevi um texto tão chato em toda a minha vida.

As outras duas mensagens estão abaixo. Uma dica do Cucos (o cartaz – participem), e um texto que escrevi há um tempo, pouco depois de ingressar na faculdade.

 

cucos

 

O CALOURO MARIPOSA

Renato estava dormindo antes de cair da árvore e ver-se transformado em uma horrenda mariposa. Seu corpo era tão belo quanto o de uma borboleta, só não havia apreciado suas asas velhas e enrugadas. E por uma lastimosa sorte, eram as asas que auferiam maior visibilidade.

Quando se encontrou com as outras mariposas, sentiu que deveria ter aproveitado mais a vida enquanto imaturo. Engraçado ele ter aquela visão pois, uma vez larva, ele invejava com intemperança o voar das aves e dos insetos. Renato parecia não ter noção de que aquele momento era o mais aguardado em toda a sua vida insignificante. Insignificante porque antes ele não tinha tanto a fazer sem as amplas possibilidades proporcionadas por aquelas asas.

Escolhi relatar a síntese da história de uma mariposa na falta de melhor inventividade para misturar temas como maturidade e ingresso à universidade. Quis fazê-lo em um único texto porque não há feitio que torne longa a distância entre calouro e maturidade. Usar o inseto como ilustração me surgiu por causa da leitura de A Metamorfose. Não sei ao certo qual era a intenção de Kafka ao escrever história tão bizarra, mas me imaginei quando calouro no momento em que Gregor Samsa acordou transformado em um gigantesco inseto.

Os hábitos alimentares mudaram, assim como as amizades, nossas trajetórias, entre outras coisas. Tudo isso após o ato de escolha da profissão, o primeiro da vida adulta. E como seria diferente se a escolha fosse outra – ou se permitisse que outros a fizessem. O vislumbre que ainda está guardado em minha memória emotiva desde o primeiro dia de calouro confunde-se com o medo de começar a tomar decisões. Nossas ações não são mais as mesmas quando compreendemos que, agora, somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar.

O que nos diferencia de Renato – e nos aproxima de Gregor – é o fato de que muitos demoram a perceber a metamorfose – ou talvez ainda nem a tenham sofrido. Nas salas da universidade, ainda esperam a solução dos problemas acadêmicos surgir como um fruto na árvore.

Graças a essa discussão, entendi porque muitos não conseguem adaptar-se ao meio acadêmico: é imaturidade. Procurem essas pessoas e descubram como levam suas vidas e descobrirão que não estou mentindo. A universidade deve ser vista como exercício. O vislumbre dos calouros logo será aniquilado se a universidade for compreendida de forma inequívoca, em uma unidade academicista.

Se voltar a historieta da mariposa para explicar melhor minha tese, diria que Renato logo descobriria que o voar das aves e dos insetos é um trabalho monótono, árduo e enfadonho. Mas é somente por meio dele que Renato descobriria os caminhos adequados para o seu bem-estar. E no final, vai adorar ter a capacidade de voar e ser invejado pelos lagartos.

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