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Os donos dos parágrafos

Deu vontade de informar os autores dos primeiros parágrafos divulgados aqui, anteriormente, em O Bufão. Quero recomendar as histórias que ainda não leram, sobretudo os romances quase poéticos de Adriana Falcão e a dramaturgia maravilhosa de Ilo Krugli, autores que, possivelmente, não deu para identificar. Os livros são raros, mas eu empresto para quem se interessar.

 

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

A Hora da Estrela, Clarice Lispector

 

Quando Gregor Samsa acordou, certa manhã, de sonhos perturbadores, ele se viu transformado, na sua cama, em um inseto gigantesco.

A Metamorfose, Kafka

 

Naquela sexta-feira dos ventos, 7 de julho, logo que a tarde caiu, os acontecimentos começaram a acontecer feito loucos na vida de Luna Clara, justo na vida dela, uma menina que tinha uma vida meio besta.

Luna Clara e Apolo Onze, Adriana Falcão

 

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela,  por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

A Cartomante, Machado de Asis

 

- Lá vem a Compadecida! Mulher em tudo se mete!

O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna

 

Eis aí vão algumas páginas escritas, às quais me atrevi a dar o nome de romance. Não foi ele movido por nenhuma dessas três poderosas inspirações que tantas vezes soem aparar as penas dos autores: glória, amor e interesse.

A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo

 

- Senhoras e senhores, vocês vão ver e ouvir a história do mistério do fundo do pote… Ou de como nasceu a fome… Já amanheceu? Falta pouco… Já é hora de contar a minha história… A minha história nasce… e morre como o sol… e se cala quando aparece a primeira estrela. Entrem, amigos… Eu conto esta história todos os dias… Ela é da época em que nem tudo o que existia precisava ser explicado. Existia o mistério, e nós, os cegos, é que cuidávamos dele. Hoje em dia, o mistério se acabou e perdemos o ofício. Eu sou o cego Setembrino.

O Mistério do Fundo do Pote, ou De Como Nasceu a Fome, Ilo Krugli

 

Alguém devia ter caluniado Josef K., pois, sem que tivesse feito mal algum, ele foi detido certa manhã.

O Processo, Kafka

 

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era rica e formosa. Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante. Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira seu fulgor?

Senhora, José de Alencar

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  1. 9 Março 2009 às 1:13 PM | #1

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