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Carta de uma geração bege

Desculpem vocês, leitores acima de 30 anos. O bom assentimento à leitura desse texto pressupõe a disposição para admitir que já estão velhos. Para deixá-los laureados, se não bastarem as minhas palavras de consolação, cito Elis Regina, da geração de vocês: “vejo vir vindo do vento o cheiro da nova estação”. Ainda me faltava um argumento, fora as canções de Belchior, para dissuadi-los de que são vocês, comandantes desse mundo em que estamos, que amam o passado e que não vêem que o novo sempre vem.

zogbyEncontrei o argumento. Veio do analista John Zogby, responsável pelas principais pesquisas de opinião das eleições americanas. No livro “The Way We’ll Be” citado em um artigo no Estadão e em um vídeo que a jornalista Lúcia Guimarães fez para o programa Saia Justa, do GNT, o sucesso de Obama nos EUA alerta para a vitória da geração de jovens de 18 a 29 anos. Já era tempo para que alguém pudesse identificar essa turma, que difere da anterior em variados pontos e que hoje, por responsabilidade da internet e de outras coisas, leva a culpa por não seguir os conselhos e o estilo de vida dos pais, guardados por Deus, contando vil metal.

Não é difícil pontuar que culpas são essas que levamos. Perguntemos a qualquer ativista, militante, combatente, esses com mais de trinta anos; perguntemos a esses ou a qualquer um quais são suas opiniões sobre a geração que vos escreve. Você, leitor, faça a si essa indagação. Somos a geração perdida, não somos? A geração do mundo material. Todos os dias somos apontados como os jovens que perderam com o que ganharam. Não é tão fácil mobilizar essa juventude como vocês faziam no mundo original de vocês, é verdade. Somos subproduto do mundo capitalista. Pensamos no nosso umbigo e etc, etc.

campaignstarsPara Zogby, ou Lúcia Guimarães, somos a geração bege, pois não pensamos em extremos. Também somos chamados de “Os Primeiros Globais”. Identificam-nos com Obama pois apoiamos os relacionamentos inter-raciais numa proporção maior que os velhinhos que meia idade. Em artigo que escreveu em agosto de 2008, a jornalista (de mais de 30 anos) reflete com olhos otimistas nossa juventude. Sua fonte é juventude americana, que é a juventude do mundo inteiro. Vejam se vocês não pensam o mesmo:

Estes jovens, segundo Zogby, são liberais na definição semântica de liberalismo – desconfiam de ideologias de direita ou esquerda. E, uma surpresa, são capazes de navegar sobre a sutileza das questões complexas, numa rejeição ao maniqueísmo orquestrado pela direita conservadora. Mesmo os jovens que são contra o aborto manifestaram-se, em números consideráveis, a favor da manutenção do direito constitucional ao aborto. A geração que dança ao som de astros internacionais, como a colombiano-libanesa Shakira e descobre a Anistia Internacional pela MTV, merece mais crédito.

Por que não teríamos motivos suficientes para desconfiar também das ideologias de esquerda? Vejamos esses jovens que pretendem copiar o mundo de vocês. Vejamos o resultado do mundo socialista que vocês sonharam. Por isso somos bege, porque não pensamos nem no preto nem no branco. Discutimos literatura ou o aquecimento global com a mesma facilidade que discutimos o próximo show, o programa da TV ou a vida dos outros. Vocês querem difundir, palestrar. Nosso festival é conversa. Vocês discutem a vida do autor e as metáforas de suas obras. Nós nos reservamos o direito de fazer nossa interpretação, e ler nossos livros como manual de vida.

Sim, pensamos em nós mesmos. Cercamo-nos em nosso mundo privado mesmo no espaço público. Observem os jovens com seus fones de ouvido na viagem de ônibus, ambicionando celulares, internet móvel, mídias sociais. É o nosso futuro. Vocês acreditam, refletem, chamam, mobilizam, nós já fazemos por nós mesmos. Belchior de novo: “viver é melhor que sonhar”. No teatro, aprendo (obrigado, Busta!) que já não vale mais a pena a mobilização social por meio da arte. Acreditamos na transformação pessoal. Portanto, esqueçam seus pessimismos, esse é o nosso modo de mudar o mundo. Guardem, por favor, seus alto-falantes. Não adianta. Vocês perderam, e o sinal está abrindo para nós, que somos jovens.

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  1. 12 Janeiro 2009 às 11:44 PM | #1

    Adorei o txto, parabéns. Faz todo sentido o que o autor defende. Só tem um ponto que me incomoda.

    Apesar da juventude brasileira pensar de forma muito parecida com a juventude norte-americana, não vivemos no mesmo país que eles. A geração gringa anterior criou um enorme muro entre eles e o resto do mundo. Será se os jovens de lá vão querer derrubar os muros criados? Afinal, somos todos “bege”…

    No fim das contas não é nosso o grito de “yes, we can”. No máximo é um jeito de compensarmos o fato de não conseguimos fazer isso em nosso próprio país…

    Enfim, quem vai levantar a voz contra o baixo astral em 2012 por aqui???

  2. Clayton Nobre
    13 Janeiro 2009 às 9:50 AM | #2

    Pois é,

    Eu coloquei no texto pra não fugir muito da realidade brasileira, mas também faz parte da pesquisa um dado muito curioso. Os jovens americanos da nossa geração são mais cosmopolitas. Aumentaram significativamente o número de viagens que eles fazem ao exterior.

    E mais: “Zogby constatou entre os que viajaram índices de apoio mais alto a causas que têm colocado a América de George Bush na contramão do mundo ocidental, como o Tratado de Kyoto”.

  3. 15 Janeiro 2009 às 12:00 PM | #3

    Quem tem mais de trinta certamente já foi teen, ou teve mais de vinte.
    Se o autor do texto não mudar de opinião e ponto de vista quando tiver mais de 30 algo estará errado.
    Para sua análise usa várias citações de mais de pessoas com mais de 30, mostrando que existe uma visão individual além da questão de geração.
    Além disso a música da Elis pode ser interpretada de outras formas.
    Vamos aguardar que o quarentão eleito presidente consiga ter maturidade para transformar um pouco a posição dos states.

  4. Clayton Nobre
    15 Janeiro 2009 às 12:34 PM | #4

    hehehe…. ainda bem um comentário da Selma!!! Você é 328ª pessoa a me atacar com isso.
    Desculpa generalizar, foi só um desabafo aos autores, intelectuais e militantes que querem atacar essa geração apontando como a pior das piores no mundo…
    Todas as citações de pesquisa e comentários são de pessoas acima de 30 anos, é verdade, pois elas já têm maturidade e vivência para comparar as duas gerações. Alguns entendem as mudanças, outros querem viver o passado. ;-)
    a música eu interpretei da minha forma mesmo, sempre faço isso. E a visão é pessoal, você está certa…
    um beijo

  1. 9 Abril 2009 às 2:01 PM | #1