Início > Cartas a uma página em branco, Crônicas > Não ser, o conflito da consciência

Não ser, o conflito da consciência

Hamlet

Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Página,

Desde já queria expressar minhas desculpas pelo espaço de tempo que levei para escrever essas frases. Passei por um tempo em um conflito de consciência, dei um salto no vazio, quase optei pela morte tal qual Hamlet e me entreguei ao que sou – tal qual o queria ter feito. Presenteio-a, como um pedido de perdão, essos versos de Shakespeare.

O dramaturgo deixou um desafio para a humanidade quando lançou Hamlet. O homem, quando angustiado, torna a dicotomia ser ou não ser tão banal quanto as frases mais tolas ditas nas telenovelas ou em outros programas de TV. A verdade é que a fronteira entre o ser e o não ser nunca encontrou uma resposta que pudesse instigar reação contrária.

Você sabe, página, sou adepto daqueles que acreditam que a leitura ou apreciação de alguma manifestação artística é um ato mais pessoal que social, ou plural. Sou adepto daqueles que não precisam ler a biografia do autor do livro para conferir sua obra. Acredito na relação que criamos entre nós mesmos, nessa descoberta interior. É isso que permite que não sejamos a mesma pessoa após lermos um livro. Por isso as discussões chatas sobre literatura.

Ainda assim, crio um espaço agora para fazer essa discussão sobre o não-ser de Hamlet. Hoje, quando leio os versos acima, crio uma reflexão diferente daquela que tive quando li Shakespeare pela primeira vez. E certamente o será diferente daqui a um tempo breve. Mas, repito, é uma reflexão pessoal, que não merece servir de argumento para encontrar respostas que não existem.

Todos os homens, se vivem na modernidade, devem passar por uma fase de vida um pouco “Hamlet”. O príncipe passou por essa angústia após ser ordenado pelo fantasma do pai a vingar sua morte, fazendo o que é hábito de qualquer bom cidadão dinamarquês àquela época. O ser ou não ser de Hamlet era a dúvida sobre fazer o que deveria ser feito ou morrer. Esse é o tormento que sentimos hoje. A todo momento somos obrigados a fazer escolhas e muitas delas nos instiga a desvendar nosso “eu” ainda não descoberto, obedecendo a ele ou às mazelas da carne, como diria Shakespeare.

Vivencio a dúvida hoje, por isso a reflexão. Chega um momento, percebemos que nos perdemos de nós mesmos. Chega um momento, esquecemos quem somos e como agiríamos em determinados conflitos. Pior, chega um momento em que agimos sob um poder coercitivo invisível que nos obriga a seguir um caminho que inconscientemente não escolhemos. Apesar de invisível, não é difícil saber de trata esse poder invisível. Essas ações que fazemos é que fazem parte do nosso não-ser. É hora de descobrir o que somos e esquecer o que não somos tarefa difícil para quem vive nas metrópoles.

Por isso, página, repito um recado que já deixei aqui para universidade, para o trabalho, aos afazeres, aos prazos e leituras obrigatórias: deixem-me ser.

Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.