Eu quero é botar o meu bloco na rua
Quem precisou passar na Praça das Três Caixas D’Água, em Porto Velho, na semana passada, encontrou um furdunço. Era esse um dos objetivos do festival de teatro que acontecia lá: fazer um furdunço na capital rondoniense, divertindo as pessoas e propiciando momentos oportunos de fuga de rotina. A notar pela receptividade do público, o carinho, as risadas e o dinheiro depositado no chapéu no final dos espetáculos, é possível afirmar que os nortistas precisavam desse espaço dentro de seus afazeres.
A festividade fazia parte da programação do “Amazônia Encena na Rua”, a primeira edição do festival de teatro de rua organizado pelo grupo teatral O Imaginário, de Porto Velho, realizado entre os dias 23 e 27 de julho. Participaram cinco grupos de teatro, vindos do Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre e Rio de Janeiro.
Havia um tempo, Manaus não precisava desse tipo de festividade para fazer teatro na rua. A necessidade de comunicar, desabafar, falar, essa angústia que todos temos para fazer alguma coisa, de difundir um pensamento, de mobilizar as pessoas, de conscientizar, essa necessidade o teatro cumpria aqui nas ruas de Manaus. Alguns fazem ainda, muito embora não chamemos de teatro. Mas é arte. A arte de reunir carteiros e fazer panelaço no meio da rua, de parar nos sinais de trânsito e chamar para o combate à violência, apitar os carros, lavar entrada de assembléia.
No encerramento do Amazônia Encena na Rua, a idéia era fazer uma invasão nas praças. Todos com roupas caracterizadas, gritando, apitando, incomodando de verdade, chamando atenção para algo que acontecia, para algo que acontece aí, na sua frente e você não vê. O teatro de rua é transgressor, não conhece as regras se não forem de pura cidadania. O teatro incomoda, cutuca. Assim era para ser em Porto Velho, e as pessoas sorriam e demonstravam que precisavam mesmo da gritaria.
A invasão precisava ser feita em outra praça, que esconde no meio do barro a trilha da Madeira Mamoré, entregue aos cachorros, coberta de lama e poeira. A ferrugem do trem tinha o mesmo aspecto da merdeira que cobria o chão de todo o local, caracterizando bem o modo de vida dos trabalhadores que morriam para que aquilo estivesse, hoje, funcionando. O mínimo de manifestação que havia sido feito pelos rondonienses foi
calado, me falaram, por uma tropa militar armada na praça comandada pelos detentores do poder público de Porto Velho. Em regime autoritário, o teatro de rua resistia. É tempo de redemocratização e algo cala a boca dos artistas.
Agora, um parágrafo final dedicado à bailarina das praças de Rondônia, que só tem a boca calada pelos olhares ignorantes que passam pelas ruas de Porto Velho. Queiramos todos nós ter um pouquinho dessa loucura.
PS1.: Bethânia, valeu pela foto da peça…
PS2.: Sêo Eduardo, vai comer sabão!

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