As emboscadas entre a ciência e a notícia
O texto abaixo foi escrito para o Jornal do Jornalista, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas, onde exerço estágio desde janeiro. Foi-me solicitado escrever sobre o Seminário de Jornalismo Científico da Fapeam. A maioria dos textos que fiz para jornais e outros veículos são desse tipo, as chamadas matérias de auditório. Por um lado elas são chatíssimas, por outra nos instiga a criatividade.
Pensando na criatividade, apanhei na casa da Selma (minha diretora de teatro) o livro Galileu Galileu de Bretch, citado no seminário, e li de cabo a rabo para elaborar um bom nariz de cera – aquela introdução do texto que chama o leitor para a leitura. Vale abrir um parêntese para recomendar o livro, que é ótimo e prazeroso de ler.
Daí, caí em outra armadilha: escrevo demais, sobretudo com a empolgação da criatividade. Mesmo no blog procuro exercer a síntese – sem sucesso, confesso, até mesmo nesta introdução que faço. Bufão, me ensine a escrever menos. Você, leitor, aprenda a ler mais.
Sai amanhã o Jornal do Jornalista com o texto editado, sem o nariz. Mas aqui está na íntegra. Para isso servem os blogs.
AS EMBOSCADAS ENTRE A CIÊNCIA E A NOTÍCIA
Em seminário de jornalismo científico, Fapeam possibilitou o debate sobre formas viáveis de difundir ciência e tecnologia sem cair nas armadilhas
Galileu acreditava que Copérnico poderia ter levado o crédito merecido à sua época se dispusesse de um instrumento para provar sua teoria: era o Sol o centro do universo, em torno do qual giravam a Terra e os demais planetas. Os avanços tecnológicos presentes àquela época possibilitaram que Galileu criasse o telescópio para provar aos religiosos e aos acadêmicos a assertiva copernicana. Hoje, a ciência e a tecnologia mantêm essa função: abrir os olhos e produzir conhecimento. Entretanto, ainda é possível encontrar no mundo moderno, o que o doutor em Ligüística Sírio Possenti chamou de “mentalidade pré-copernicana”.
Durante palestra de abertura do I Seminário de Jornalismo Científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), realizado em 18 de abril, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, Possenti debateu sobre a primeira de muitas armadilhas encontradas no exercício da popularização da ciência e tecnologia. Para ilustrar sua teoria, ele citou um trecho da peça de teatro A Vida de Galileu (ou Galileu Galilei), de Bertolt Brecht, no momento em que Galileu convidava os professores da universidade a averiguarem a veracidade da teoria de Copérnico. O telescópio estava de frente para a janela e apontava para o sol no centro dos astros.
– Razões, Senhor Galileu, razões! – solicitou o Filósofo, um dos professores.
– Razões? Mas se os olhos mostram o fenômeno? – replicou Galileu.
– Nos apoiamos em nada menos que na autoridade do divino Aristóteles – disse o Filósofo, em um momento mais tarde.
– Meus senhores, a fé na autoridade de Aristóteles é uma coisa, e os fatos, que são tangíveis, são outra. Eu lhes peço com toda a humildade que acreditem nos seus olhos.
– Meu caro Galileu, por mais antiquado que pareça ao senhor, eu ainda tenho o hábito de ler Aristóteles, e lhe garanto que acredito nos meus olhos quando leio.
Os professores saem decepcionados, não mais que Galileu, que ainda insiste:
– Mas bastava que os senhores olhassem pelo instrumento! – lamentou. O filho da governanta cochichou para a mãe: “eles são burros”.
A lembrança da dramaturgia de Brecht foi útil para que o público presente na palestra entendesse a quem Possenti se referia quando falava sobre os filósofos copernicanos – que olham os objetos como eles são – e os opositores. Esses últimos podem ser comparados, hoje, aos articulistas que ditam as regras da língua portuguesa nos jornais. Tais regras, tal qual a forma como elas são transmitidas, sinalizam um preconceito tão ruim quanto o de raça ou de gênero. Para Possenti, o preconceito lingüístico é da ordem dos preconceitos culturais. “Os brasileiros incultos foram convencidos de que não sabem falar. É a pior maneira de negar suas características humanas”, afirmou. Ele acrescenta dizendo que os ditames da língua provocam o mesmo poder coercitivo e discriminatório das regras de etiqueta ou de moda; e os gramáticos, hoje, estão mais para Ronaldo Ésper do que para professores de português.
No decorrer do seminário, foi possível notar que a história de Galileu remete tanto à questão da popularização e difusão da ciência e tecnologia quanto a preconceito lingüístico. O jornalista Antônio Ximenes, durante mesa-rendonda, disse que o desconhecimento é a maior arma do jornalismo científico. “Ser jornalista científico é admitir que somos ignorantes. Não são os doutores que vão dizer o que é a vida do ribeirinho”, falou. Seguindo esse ponto de vista, Ximenes disse que não seria errado afirmar que o jornalismo científico amazonense está no mesmo nível do jornalismo científico de São Paulo ou da França.
O segundo entrave tem relação a problemas próprios do exercício da profissão de jornalista. O jornal impresso, na tentativa de engajar-se em uma concorrência desleal com o jornalismo de rádio, televisão e internet, tem apresentado cada vez menos a prática da abordagem. A questão foi expressa por César Wanderley, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas. Ele complementou a esse problema o fato de que os jornalistas freqüentemente são repreendidos em suas atividades por causa de interesses de empresas de comunicação. “A informação é base para decisões. A informação omissa é pior que a mal-feita”, argumentou.
Discorreram-se sobre uma série de outras armadilhas, como a questão da segmentação do jornalismo, percebida com preocupação pelo jornalista Gerson Severo Dantas. Ainda assim, reconheceu-se que a pesquisa durante a atividade do jornalismo científico deve ser feita com um cuidado especial, uma vez que os fatos, nesse ramo da profissão, nem sempre são imutáveis. Por sua vez, Antônio Ximenes disse que a dialética é determinante durante a etapa da apuração e da pesquisa. “É preciso comprovar. Não bastam declarações”, disse.
A difusão da ciência no Amazonas
O interesse dos proprietários dos meios de comunicação pela difusão da ciência e tecnologia é outro desafio que é preciso ser superado tanto quanto a falta de investimentos. De acordo com o lingüista Odenildo Sena, presidente da Fapeam, “grandes países se destacam na área de ciência e tecnologia porque a difusão é bem feita”. Ele lamentou o fato de que havia espaço notório na mídia sobre invasão de reitoria quando a Fapeam havia recebido todos os secretários de Ciência e Tecnologia do Brasil em um fórum nacional.
Durante o seminário, foram apresentadas várias atividades realizadas em âmbito local e nacional com o intuito de produzir informação científica enfrentando todas essas barreiras. O jornalista Allan Rodrigues apresentou os instrumentos utilizados pelo Portal da Ciência, revista eletrônica voltada para a divulgação científica. O repórter Renan Albuquerque relatou sua experiência em produção de reportagens sobre o meio ambiente para uma editoria própria e diária do jornal Amazonas Em Tempo.
Com o propósito de aprimorar a formação do jornalista científico, José Aldemir de Oliveira, secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Amazonas (Sect), demonstrou a vontade de criar linhas de financiamento mais específicas para esse profissional. Ele também parabenizou o fato de veículos de comunicação criarem espaços específicos para a difusão científica. O seminário organizado pela Fapeam, para o secretário, já é um passo para discutir formas mais viáveis de popularizar a ciência, além de difundi-la. Ele acrescenta que “esse movimento maior em ciência e tecnologia aparece nos últimos quatro ou cinco anos, com a criação da Sect e da Fapeam em 2003”.
Para Grace Soares, jornalista e assessora de comunicação da Fapeam, o seminário teve o objetivo alcançado. Foram mais de 150 inscritos, entre assessores, jornalistas, estudantes e demais profissionais interessados. “Inclusive tivemos a presença de vários pesquisadores interessados em discutir sobre jornalismo científico, uma temática que cada vez mais faz parte de suas vidas”, disse. Ela falou que existe a proposta de dar continuidade ao seminário como forma de injetar ânimo e gás às ações que incentivam a prática da divulgação de ciência. Do ponto de vista de assessora, Grace disse que se sente bastante gratificada ao ver desafios sendo enfrentados e espaços na mídia, aos poucos, sendo concedidos à ciência. “Isso é muito importante para nós, do outro lado do balcão, pois é reconhecer a necessidade de tornar públicos esses conhecimentos. A Fapeam é aliada desses veículos e faz o possível para que essa relação seja a mais transparente possível”, conclui.

Muito bom meu caro. Muito bom mesmo o texto. Falows