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Archive for 9 Julho 2008

As emboscadas entre a ciência e a notícia

O texto abaixo foi escrito para o Jornal do Jornalista, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas, onde exerço estágio desde janeiro. Foi-me solicitado escrever sobre o Seminário de Jornalismo Científico da Fapeam. A maioria dos textos que fiz para jornais e outros veículos são desse tipo, as chamadas matérias de auditório. Por um lado elas são chatíssimas, por outra nos instiga a criatividade.

Pensando na criatividade, apanhei na casa da Selma (minha diretora de teatro) o livro Galileu Galileu de Bretch, citado no seminário, e li de cabo a rabo para elaborar um bom nariz de cera – aquela introdução do texto que chama o leitor para a leitura. Vale abrir um parêntese para recomendar o livro, que é ótimo e prazeroso de ler.

Daí, caí em outra armadilha: escrevo demais, sobretudo com a empolgação da criatividade. Mesmo no blog procuro exercer a síntese – sem sucesso, confesso, até mesmo nesta introdução que faço. Bufão, me ensine a escrever menos. Você, leitor, aprenda a ler mais.

Sai amanhã o Jornal do Jornalista com o texto editado, sem o nariz. Mas aqui está na íntegra. Para isso servem os blogs.

telescopio

AS EMBOSCADAS ENTRE A CIÊNCIA E A NOTÍCIA

Em seminário de jornalismo científico, Fapeam possibilitou o debate sobre formas viáveis de difundir ciência e tecnologia sem cair nas armadilhas

Galileu acreditava que Copérnico poderia ter levado o crédito merecido à sua época se dispusesse de um instrumento para provar sua teoria: era o Sol o centro do universo, em torno do qual giravam a Terra e os demais planetas. Os avanços tecnológicos presentes àquela época possibilitaram que Galileu criasse o telescópio para provar aos religiosos e aos acadêmicos a assertiva copernicana. Hoje, a ciência e a tecnologia mantêm essa função: abrir os olhos e produzir conhecimento. Entretanto, ainda é possível encontrar no mundo moderno, o que o doutor em Ligüística Sírio Possenti chamou de “mentalidade pré-copernicana”.

Durante palestra de abertura do I Seminário de Jornalismo Científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), realizado em 18 de abril, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia, Possenti debateu sobre a primeira de muitas armadilhas encontradas no exercício da popularização da ciência e tecnologia. Para ilustrar sua teoria, ele citou um trecho da peça de teatro A Vida de Galileu (ou Galileu Galilei), de Bertolt Brecht, no momento em que Galileu convidava os professores da universidade a averiguarem a veracidade da teoria de Copérnico. O telescópio estava de frente para a janela e apontava para o sol no centro dos astros.

– ­­­­­Razões, Senhor Galileu, razões! – solicitou o Filósofo, um dos professores.

– Razões? Mas se os olhos mostram o fenômeno? – replicou Galileu.

– Nos apoiamos em nada menos que na autoridade do divino Aristóteles – disse o Filósofo, em um momento mais tarde.

– Meus senhores, a fé na autoridade de Aristóteles é uma coisa, e os fatos, que são tangíveis, são outra. Eu lhes peço com toda a humildade que acreditem nos seus olhos.

­– Meu caro Galileu, por mais antiquado que pareça ao senhor, eu ainda tenho o hábito de ler Aristóteles, e lhe garanto que acredito nos meus olhos quando leio.

Os professores saem decepcionados, não mais que Galileu, que ainda insiste:

– Mas bastava que os senhores olhassem pelo instrumento! – lamentou. O filho da governanta cochichou para a mãe: “eles são burros”.

A lembrança da dramaturgia de Brecht foi útil para que o público presente na palestra entendesse a quem Possenti se referia quando falava sobre os filósofos copernicanos – que olham os objetos como eles são – e os opositores. Esses últimos podem ser comparados, hoje, aos articulistas que ditam as regras da língua portuguesa nos jornais. Tais regras, tal qual a forma como elas são transmitidas, sinalizam um preconceito tão ruim quanto o de raça ou de gênero. Para Possenti, o preconceito lingüístico é da ordem dos preconceitos culturais. “Os brasileiros incultos foram convencidos de que não sabem falar. É a pior maneira de negar suas características humanas”, afirmou. Ele acrescenta dizendo que os ditames da língua provocam o mesmo poder coercitivo e discriminatório das regras de etiqueta ou de moda; e os gramáticos, hoje, estão mais para Ronaldo Ésper do que para professores de português.

No decorrer do seminário, foi possível notar que a história de Galileu remete tanto à questão da popularização e difusão da ciência e tecnologia quanto a preconceito lingüístico. O jornalista Antônio Ximenes, durante mesa-rendonda, disse que o desconhecimento é a maior arma do jornalismo científico. “Ser jornalista científico é admitir que somos ignorantes. Não são os doutores que vão dizer o que é a vida do ribeirinho”, falou. Seguindo esse ponto de vista, Ximenes disse que não seria errado afirmar que o jornalismo científico amazonense está no mesmo nível do jornalismo científico de São Paulo ou da França.

O segundo entrave tem relação a problemas próprios do exercício da profissão de jornalista. O jornal impresso, na tentativa de engajar-se em uma concorrência desleal com o jornalismo de rádio, televisão e internet, tem apresentado cada vez menos a prática da abordagem. A questão foi expressa por César Wanderley, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas. Ele complementou a esse problema o fato de que os jornalistas freqüentemente são repreendidos em suas atividades por causa de interesses de empresas de comunicação. “A informação é base para decisões. A informação omissa é pior que a mal-feita”, argumentou.

Discorreram-se sobre uma série de outras armadilhas, como a questão da segmentação do jornalismo, percebida com preocupação pelo jornalista Gerson Severo Dantas. Ainda assim, reconheceu-se que a pesquisa durante a atividade do jornalismo científico deve ser feita com um cuidado especial, uma vez que os fatos, nesse ramo da profissão, nem sempre são imutáveis. Por sua vez, Antônio Ximenes disse que a dialética é determinante durante a etapa da apuração e da pesquisa. “É preciso comprovar. Não bastam declarações”, disse.

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