Um recadinho aos ainda não-condôminos
Há quem alerte os seres estressados que vagam pelos corredores do funcionalismo público ou pelos confins da burocracia universitária a necessidade de um dia de descanso. Faço um alerta a mais aos amigos deste blogueiro: olha bem onde tu pretendes descansar a cabeça! As donas de casa, ou os donos, ganharam mais a minha simpatia e respeito quando tive a oportunidade ímpar de participar de uma reunião de condomínio. Sim, o “ímpar” é ironia. Pior que compartilhar aquela experiência é a necessidade de contentar-me de que se tratava do lugar onde eu agora morava, não muito mais que três meses.
Não quero, com este post, roubar os intentos do Fantástico ou de nenhuma novela das oito em suas tentativas politicamente corretas em difundir as vidas sofridas, custosas, fatigantes e perigosas de nossos colegas síndicos. Acho muito que eles merecem, sobretudo elas. Saber administrar muito bem o lugar onde queremos descansar as cabeças exige um esforço muito além de princípios a la Rebecca Garcia. Admiro, portanto, aquelas que se encorajam em mostrar que não trabalham para limpar nossos travesseiros ou desentupir nossas pias. Trata-se de uma gestão para pouquíssimos, ainda mais quando se trata de combates com as construtoras políticas, a quem dou mensalmente meu querido dinheirinho.
O alerta, na verdade, é aos leitores não-condôminos: tomem cuidado com esse negócio de apartamento. E trato de “negócio” no sentido literal da palavra. A cautela tem várias justificativas. Explicarei duas.
Percebemos que a verticalização de nossa zona urbana é algo que prospera corações das mais variadas classes, seja via panfletos Jardim Paradiso, Smile, Mundi, ou promessas de Prosamim mesmo. Rindo? Se pensas que os conflitos “Prosamim” são promessas políticas longe do teu universo de vida, não queiras sonhar um dia com os edifícios cobertos de flores que ilustram os panfletos dominicais. Descobri no ato da compra do apartamento, já há um tempo, que o então futuro condomínio que eu habitaria era de propriedade do sr. Avelino. Na reunião a que me referi no início do texto, senti que alguns condôminos descobriam naquele momento o que era uma baita de uma politicagem, com direito a cobranças indevidas, promessas não realizadas, gente pra dormir no corredor, propaganda enganosa e um grande silêncio estampado em páginas duplas de nossos jornais diários.
Outro motivo é a consciência de que o condomínio é o lugar, percebam bem e notem que é verdade, é o lugar onde deve se habitar em rede, numa sintonia que lhe é exigida em dobro em relação a outras vizinhanças. Coberto até o tucupi de referências como Capra, Maturana e Morin, a ideia de viver num condomínio serviu de alusões a algumas leituras que faço recentemente. Um “gato” mal feito ou um cabo da televisão mal instalado não vai trazer prejuízos só para meu círculo de lazer. O cano que eu quebrei sem querer pode afetar o dia inteiro de um vizinho mal lavado. Talvez a moça da administração do condomínio não tivesse tanta consciência disso antes de executar o exercício rotineiro de bater de porta em porta, às 11 horas da manhã, pedindo para desligar a lâmpada ainda acesa. “A conta quem paga é todo mundo”, diz ela.
Aos ainda não-condôminos, portanto, um recadinho: ou descubram com nossas gerações as formas mais divertidas e sustentáveis de ser viver em conjunto, numa inter-relação necessária ao nosso bem-estar; ou então se contentem em imaginar que nenhum daqueles problemas típicos de “Prosamim” te afeta, e façam figa, aguardando com muita esperança e expectativa a certeza do prenúncio apocalíptico de 2012.
Conselho Universitário, um conselho aos jornalistas

Não sei bem se as reuniões dos Conselhos Universitários estão na mesma categoria daqueles tipos de ritos secretos pelo qual o jornalista deve passar despercebido a fim de realizar seu “furo”. Explico meu medo. No último Consuni da Ufam, perguntaram-me por que estaria lá a tirar fotos. “É para o site da Adua, onde trabalho”, respondi humildemente. A tréplica foi um olhar de desconfiança.
Logo, os leitores entenderão que talvez não fosse tão difícil saber o porquê do “pé-atrás”. Caso descubra sobre a possibilidade de plateia nas deliberações do Conselho, volto aqui para convidar os leitores a estarem lá presentes. Morrerão todos de rir. Lá é a última instância por qual passam recursos, por exemplo, de jubilamento: o relator do processo lê o recurso do infeliz aluno retardatário e é acompanhado, quase sempre, de gargalhadas da plateia de conselheiros. Já viram aqueles filmes de julgamento, quando os figurantes cumprem tão bem o papel dos cochichos e vaias no momento das interrogações contra o réu?
Algumas vezes, a decisão mais ajuizada, opinião minha, se sobressai – quase sempre por conta de uma voz sábia de um dos conselheiros: “não entendo os motivos das gargalhadas, o aluno está no direito de recorrer”. Outras vezes, os professores, alunos e técnicos são surpreendidos com pautas bombásticas que surgem nas entrelinhas do aviso de convocação. Um milésimo de segundo para pensar o destino da universidade e o rumo de vida que afetará toda a sociedade.

Algumas barbaridades, que por vezes pensamos que é fofoca de mau gosto, são lá reveladas por meios dos processos em pauta. O primeiro daquela reunião me motivou a pensar se escrevia esse post quase duas semanas depois, ainda que algumas informações não estão lá táo apuradas. O tal processo faz parte desse pacote de atrocidades que canalhas da universidade cometem contra os cidadãos que habitam ao redor da instituição.
Pedro Souza, requerente do processo em questão, reclama os erros nas notas de residência médica no Hospital Universitário Getúlio Vargas. O relatório do processo poderia ser tão banal quanto aqueles dos jubilamentos, se não fosse as questões que me fazem espantar os olhos. A alegação de Pedro foi confirmada. As notas do aluno e de mais dois haviam sido alteradas. A servidora encarregada do relatório das notas foi afastada do cargo. Pedro não era amigo do “rei”, nas palavras da relatora do processo, e também não fazia parte do baralho de cartas marcadas do coordenador de curso.
Outra voz me chamava a fim de saber para onde iam minhas fotografias. O dono da voz era Pedro Souza. Me chamou para um canto e contou por que haviam forjado suas notas. “Tire foto minha. Leve pro seu jornal”, disse ele muito timidamente. O processo está no meio de tantos outros lidos durante aquele Conselho. E para azar de Pedro, era reunião sem hábitos de receber jornalistas. Ou porque o Consuni é realmente um daqueles ritos secretos a que me referi, ou porque geralmente algumas decisões que podem influenciar cidadãos e cidadãs de nossa casa não interessam.
Os picolezeiros e outros possíveis sobreviventes do apocalipse
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

Um dia o amazonense vai ser cobaia de alguma experiência intergaláctica, sendo a única espécie humana da Terra imune aos efeitos do aquecimento global. A tese não é minha. É de Márcio Souza, em Fim do Terceiro Mundo, salve engano. Outro dia escutei teorias conspiratórias não tão esdrúxulas em roda de conversa em meio a três ventiladores – um deles já quebrado: Manaus sofrerá, muito breve, impacto parecido com o boom da Zona Franca. Em vez de imigração, o contrário.
Se no início do verão deste ano, o amazonense já não resiste os cérebros em banho-maria, daqui a um tempo haverá uma fuga em massa. A elite manauara é a primeira a escapar, naturalmente. E se não houvesse as possibilidades de uma fuga em massa, se ficássemos aqui presos e ameaçados pelo ardor do aquecimento, então seria a elite amazonense a primeira a cair morta. Digo o motivo, mas antes alerto para as teorias preconceituosas. E também afirmo que gosto de generalizar e não me refiro, neste post, a família e amigos, de quem nunca deixei falarem mal.
Vivo atualmente a experiência de quem troca a rotina de um morador do Centro pelo da Cidade Nova. Sim, literalmente. O esforço para correr pelo assento no ônibus foi trocado pela tentativa, na maioria das vezes vã, de empurrar os passageiros da escada a fim de não ter o pé guilhotinado pela porta de saída. E por isso digo que a alta classe não é imune ao sofrimento, porque aquele pessoal da escada, suados e esbaforidos, soltava risadas de alegria.
Enfrentar a viagem que muitos trabalhadores enfrentam no seu cotidiano exige deles uma paz de espírito incalculável, que buscam quando sobem as escadas e quando começam o expediente. Daí percebo que esses probleminhas da vida são tão meus quanto do Amazonino Mendes. Quando se ignoram os infortúnios de uma viagem maldita, começamos a perceber algumas figuras esquisitas que nos circundam, figurinos das Índias superelaborados, velhinhas apressadas, conversas ao vento, gente tão divertida que parece imune a sofrimento.
Os picolezeiros do fim de tarde dão aula de criatividade. Talvez esses sejam os últimos sobreviventes do fim do mundo. Ontem, o da rota do Manoa, confessou sua indolência: “vocês já me conhecem, eu tô cansado, não preciso falar mais nada. Resumindo, esse é o melhor picolé da cidade de Manaus”. Vendeu mais de dez. Outro, da rota pro bairro Amazonino Mendes, para certificar o cliente da qualidade do picolé, avalia o produto apontando-o para a luz, como se fosse nota de 100 reais. “Esse tá bom!”. Vendeu mais que o outro. Me diverte o com sotaque castellano. Ele vende balas e caneta multicolorida: “Usted escribe azul, negro y rojo, pero pagó solamente un real. Relámpago de la promoción”. Nos acentos, maioria dos passageiros concentrada na leitura do jornal, fenômeno que não se vê nos ônibus rumo à universidade.
Apresentar peça de teatro na feira da Eduardo Ribeiro é desafio a qualquer artista que se alimenta da recepção do público. Dondocas que por lá andam não param de reclamar do próprio suor e fingem que não veem os espetáculos de rua, ali na sua frente, a fim de não serem importunadas. Cito de novo Márcio Souza, para quem a elite amazonense está longe de entender Hamlet. Em vez disso, entende a linguagem do Shopping Center, e sua atenção está calibrada pelo tempo de informação que a televisão bombardeia. Esses, digo eu, são os sofredores de nossa cidade, os primeiros a serem derretidos, escorrendo nas lamas de um planeta em pleno apocalipse.
Post especial aos novos amigos
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.
Não sou de falar, sou de escrever. Alguns sabem disso. Viveria melhor nos círculos sociais e acadêmicos se tivéssemos a oportunidade de parar um instante nossas conversas para divagar por escrito, e com isso, ler o que já foi refletido. Por isso, não se sintam odiados quando recebem de mim a velha resposta de que sim, estou bem e que sim, está tudo joia.
Andar atualmente com uma cicatriz na testa me incita o preparo de uma resposta já pronta, mas a indolência que tenho a prepará-la e de ter que repeti-la, em todos os encontros, a quem me pergunta com a cara de nojo ou pesar: “o que foi isso, menino?”. Prefiro responder aborrecidamente: “nada”. O certo é que andava distraído, como tenho andado nos últimos dias, e tive a má sorte de me deparar com a quina de uma janela.
Por isso, caros, esse post é elaborado com as segundas intenções de saciar as vontades de quem perquire a internet a fim de saber qual é a desse menino. Digo isso porque deste instante em diante deparo-me com a graciosa oportunidade de que muitos gostam: novas amizades. São esses momentos, podemos perceber, que caracterizam os marcos deixados em nossas vidas. Cada grande amigo que temos representa uma fase de vida, velha ou nova, que fomos inquiridos a enfrentar. E o melhor de todas essas mudanças, quando colam grau, quando mudam de endereço, quando recebem novos projetos a serem desempenhados, bons ou maus caminhos que escolhemos, são essas recompensas que ficam para a gente.
Então, por enfrentar todas essas mudanças em um pacote só, digo aos que aqui fuçam que apesar da chatice, já dizia Mário Quintana que os amigos são nossos chatos prediletos. Também revelo falo com os olhos, alguns já sabem decifrar. Fiquem atentos para a perturbação diária de divulgações e lembretes das peças de teatro que apresentarei. A mais ruim das qualidades é que não tenho a decisão certa a tomar na ponta da língua. Sou indolente, amazonense, portanto, deixem-me pensar.
Um presente aos leitores: poema sobre os bons amigos que encontrei de Machado de Assis. A quem tiver tempo, é só clicar no link de baixo.
Digressão rápida sobre jornalismo, turista e itinerários
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Já passa um mês o Bufão vem se entristecendo com a desatualização. A responsabilidade pela retomada ainda é maior tendo em vista o leque de pautas que foram deixadas para trás. Mil perguntas surgiam, por exemplo, acerca da posição deste blog em relação à decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a proibição da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo.
Não é que tenho opinião incômoda para a mobilização anti ou pro-diploma. O certo é que, levando-se em conta o embaraço dos parafusos que se formam em minha cabeça e a possibilidade de uma discussão que já está na geladeira, prefiro discorrer sobre este entre outros assuntos a partir de algumas digressões que faço no dia-a-dia. Digressão, digo eu, é aquele momento em que, sem muito a fazer, faz-se uma pausa no pensamento para dedicar a atenção a algo que lhe surge momentaneamente.
Este post se dedica a um caso ocorrido ontem ainda. A Universidade Federal do Amazonas, cheia de acadêmicos que vieram conhecer a instituição por conta da SBPC ou Enapet, é observada pela primeira vez ao vivo por uma série de turistas entusiasmados. A caminho da Ufam, cada grupo de 10 árvores que era visto no ônibus que percorria o Centro, a Cachoeirinha ou o Japiim, era apontado por uma turista “cara de pesquisador”, que indagava: “chegamos à universidade”?
O fato que trago à discussão (desculpem a digressão da digressão) ocorreu quando uma dessas meninas branquinhas entrou na linha 616, às 21h, e, com o ônibus já em percurso, pediu com o ar gentil de solicitude ao motorista: “quando esse ônibus passar próximo da Vila Olímpica, o senhor me avisa?”
Daí uma conversa desesperada entre cobradora, passageiros e motorista foi lançada para que a moça pudesse chegar ao alojamento na Vila Olímpica com as melhores vantagens para ela própria tendo em vista o desafio que será feito, uma vez que a linha seguia em rumo completamente inverso.
- Você vai descer na avenida Getúlio Vargas, e de lá pega, anote aí, o 223 ou o 207. E o 214 também.
- Não, fulano, assim ela vai pagar dois ônibus. Ela não tem a carteirinha.
- Mas se ela não pagar dois ônibus, não chega à Vila Olímpica.
- Mas é claro que chega. Moça, chama esse rapaz. (Ao rapaz) Você sabe que ônibus do T2 passa na Vila Olímpica?
- Oi? Pelo que saiba, nenhum.
- Ih, então o jeito é pagar dois ônibus mesmo.
- Não tô dizendo… Você desce na Glacial, e espera o 223, 207 ou o 214.
Outro passageiro: – Mas ela vai pegar dois ônibus.
- Fazer o quê?
- Deixa eu dizer. Ela pode descer no T2, pegar o integração pra ir ao T1. De lá, tem um monte de ônibus que vai pra Vila Olímpica.
- Então é isso. Vem cá, você vai descer no primeiro terminal. Lá você pega o integração e no outro terminal você espera os ônibus pra Vila Olímpica?
- Quais ônibus?
- Espera aí, chama esse moço de novo. (Ao rapaz novamente) Quais ônibus da Vila Olímpica passam no T1?
- Se não me engano, 201 passa.
- Você falou que passa um monte…
- É, mas não sei quais passam, nem moro lá perto.
- Eu acho melhor ela descer na Getúlio Vargas, pagando dois ônibus e pronto.
- Mas eu vou pagar dois ônibus todo dia?
- Não, filha. Você nunca mais suba nesse 616 pra ir para a Vila Olímpica. Pegue o 125 e desça no Terminal da Constantino Nery.
Daí a moça desceu no terminal da Cachoeirinha, meio grata, meio receosa. O motorista, que parecia já ter se distanciado da conversa, acende atrasado uma lâmpada:
- Olha a leseira. Era só ela ter pegado o 215. Ia direto.
Termino o post dizendo que compreendo o direito de liberdade de se expressão das pessoas. Assevero a fala de que a opinião é diversa e a manifestação plural desta é um dever da mídia, dos cidadãos, das organizações, dos bares e academias de educação física. Agora fato é fato. Contextualizar informações, mediar opiniões, apurar e difundir da maneira mais clara possível é tarefa dura, exige inteligência e, sim, caros, aprendizagem.
A era das perguntas off. Faltei essa aula.
Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

Devo ter faltado algumas aulas importantes no curso de jornalismo, porque o ponto do meu cérebro onde são formadas minhas opiniões está em clima de samba do crioulo doido, de modo que peço socorro. Estão comentando aí que a Petrobras está violando o “sigilo dos órgãos de imprensa”, e digo isso com uma pitada de sorriso mordaz na ponta da boca, pois sempre achei que sigilo e imprensa fossem palavras completamente antagônicas.
O fato que cito tem relação com a criação do blog Fatos e Dados, da Petrobras. Pela primeira vez algo aconteceu nessa Comissão Parlamentar de Inquérito que nos fizesse lembrar quem era o alvo dos investigadores, se não o PT, o Governo e os oposicionistas. A assessoria da Petrobras decidiu criar um blog para publicar as perguntas off que os jornalistas enviam para a empresa, assim como o posicionamento “politicamente correto” da Petrobras ante as reportagens que veem na mídia, com direito a divulgação via twitter.
Parece que os colegas jornalistas do Globo e da Folha de S. Paulo ficaram insanos da vida quando viram suas perguntas publicadas, e as respostas reenviadas, para todo mundo ver. É certo que é exagero meu gritar contra a existência de sigilo de órgãos da imprensa. (Muitos aqui deveriam executá-la para preservar o nome de nossos amigos jornalistas ameaçados). Mas, professores de jornalismo, socorro, não me explicaram esse troço de perguntas off.
Na prática do jornalismo, quando a fonte menciona o nome “off”, meus ouvidos acendem aceleradamente e ganho interesse pela reportagem. A vontade é de publicar, e, sendo informação, gravo e publico. É engraçado perceber como as funções agora se invertem e não há mesmo mocinho e vilão nessas contendas corriqueiras entre assessor de comunicação e jornalista. Vi nas salas de aula uma briguinha tola que acusavam RP’s de “omissores” dos fatos, e também os jornalistas pela agonia de publicá-las a todo custo. Essa discussão continua. Dia desses presenciei uma parecida.
Os blogs, já diziam nessa época de sua disseminação, eram ótimas ferramentas para que jornalistas publicassem seus textos off, suas matérias censuradas, etc. Arrisco-me a dizer que parece que a Petrobras (me perdoem se outra empresa já fez isso antes) quer virar uma página da teoria do jornalismo, e ser alvo de discussões nas aulas de ética. Preciso participar desses debates pois meu cérebro necessita de opiniões alheias.
Desculpem minha ignorância, nem conheço muito a linha editorial desses jornais, e pouco sei sobre as discussões que envolvem a cobertura da tal CPI. Mas me parece que a Petrobras, que não é burra, quis experimentar uma carapuça nos jornalistas paulistas, frustrados da vida. E parece que a roupa serviu.
As últimas da trupe da Samara
Sete dias depois e nada de profecia concretizada. Nenhum telefonema com chamados estranhos, água transbordando em televisão, escada, árvore, nada. Desculpem o post repetitivo, mas trabalhando na Associação dos Docentes da Ufam (Adua), e ainda que monografia, Baião de Dois e maratona Lost tenham preenchido o meu final de semana, é impossível me distanciar dos fatos relacionados à agressão em sala de aula – cometida já faz uma semana, tema do último post.
A alguns curiosos que me perguntam notícias que a Adua tem em relação ao caso, basta acessar a página da entidade na internet (merchan básico). Para resumir, vou relatar brevemente, com o tempo que as atribulações me permitem, um pouco dos desdobramentos e repercussões que todos estão aflitos para saber.
Verifiquei hoje cedo que o ator que interpretou a Samara Aziz (versão Amy Winehouse, conforme apontou meu amigo Fábio no Twitter), durante ato público de sexta-feira, passa bem e não sofreu atentados surpreendentes em suas caminhadas rotineiras nas noites do Centro de Manaus, e sim, está com os dentes mantidos no lugar.
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Os diretores da Adua, mais o estudante que vos fala, também gozam de perfeita saúde e o dia na universidade parece ter sido tão corriqueiro quanto sempre o foi, sem água, sem telefone. Mas não dá pra criar teorias conspiratórias relacionando isso ao caso Aziz. Só não posso passar notícias do anônimo internauta V de Vendeta por segurança e ignorância. Só sei que a comunidade no Orkut “Porrada na Samara“, criada pelo sujeito, não parece ter mobilizado rapidamemte a comunidade universitária, em suas manifestações politicamente corretas de paz e amor ao próximo.
O reitor da Ufam continua em Brasília e participou de uma grande condecoração, no Senado Federal, que homenageou a universidade pelo seu centenário entre outras flores. Qualquer encaminhamento em relação aos problemas e mazelas da instituição, ele manda dizer que passou o bastão para um de seus pró-reitores. Aqui na Ufam, o reitor em exercício Edmilson Bruno promete ligar para o reitor amigo a fim de saber se ele vai fazer, uma semana depois, uma bendita notinha pública contra o atentado na universidade.
Sobre a repentinamente mal-amada Samara, parece que esta se esvaneceu. Em reunião da reitoria com professores, foi acertado que uma Comissão de Inquérito da Ufam será convocada hoje, por meio de portaria prometida pelo reitor em exercício, para resolver o futuro da garota na instituição. Os alunos, entretanto, querem tomar para si essa decisão. Há quem diga que ela passou para a faculdade Martha Falcão (para graça do jornalismo local, ela vai pra outro curso: Direito). A próxima manifestação, se ainda sobrar o calor pela expressividade anti-Aziz, será nos corredores da faculdade particular.
E na imprensa local, destaco dois artigos. Um, de autoria do professor Aldisio Filgueiras, conseguiu de alguma forma passar pelo crivo dos olhos do Amazonas Em Tempo e será fixado nas paredes da universidade. A outra é do colega do primeiro, o escritor Márcio Souza. Ele compara Samara Aziz a qualquer outro deliquente, por compartilhar o mesmo cinismo, truculência e impunidade de um menino que brinca com metralhadoras. Ele pede para fechar as portas da Ufam caso o fato da agressão fique impune, uma vez que estará comprovada a ausência de liberdade de cátedra da instituição. Alguns alunos já pensaram em preparar, para qualquer dia desses, uma cruz enterrada em frente à Ufam, com o epitáfio: “Aqui jaz uma universidade”.
P.S.: De presente os cartazes que tanto pediram…
Pancada em professor: uma “pauta de blog”
Começo a sentir uma ligeira vantagem na arte de comandar um blog. Como se não bastasse a visibilidade que ele vem me oferecendo como um finalista de jornalismo, me ligam com a oferta de uma “pauta de blog”:
- Já está sabendo?
- Oi. Alô, sabendo o quê?
- Tô ligando pra saber se tu já tá sabendo.
Me explicou rapidamente algo em relação à Ufam, estudantes, e já me veio uma resposta pronta sobre a manifestação. Respondi que não estive na última reunião, não estava sabendo.
- Mas põe no teu blog!
E então me explicou direito uma informação que, realmente, não poderia se adequar no molde de uma pauta comum em relação a alguns jornais que lemos. Não é à toa que o fato, ocorrido há pouco, já está em diversos blogs de jornalistas locais. Em época ainda de redemocratização, em que a censura toma formas diferenciadas, invisíveis a olhos ingênuos, crua e maldosa, a “pauta de blog” é um conceito que já deveria estar nos mais modernos livros de comunicação. E os alunos do primeiro período do referido curso, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), já estão cientes da demanda, e conferiram com os próprios olhos.
Em uma das primeiras aulas da disciplina Tópicos Especiais de Jornalismo, um dos assuntos do professor Gilson Monteiro era a censura, os desmandes dos coronéis ante aos meios de comunicação de nossa provinciana cidadezinha baré. Logo depois veio a abordagem prática, com direito a uma visita acadêmica à delegacia de polícia lá perto. Resumindo: o que me contaram as testemunhas do fato – fiz o exercício da apuração – a sobrinha do vice-governador Omar Aziz assim que escutou a crítica feita pelo professor ao tio durante a aula, demonstrou a quem quisesse conferir a sua insatisfação. Seja pelo sentimento de desrespeito, seja pelo faro jornalístico de foquinha recém-nascida, ou por orientações, ou pela vontade do desabafo, a aluna não receou sua futura imagem em sala de aula, nem o recado no Orkut: “o respeito põe os dentes no lugar”, e ligou para o pai, reclamando.
Um tempo depois estavam o pai e o tio Amin Aziz com o segurança, no auditório, para demonstrar a diferença do domínio entre professor e político na base da pancada. Socou o professor Gilson, sem poupar os alunos que estavam presentes, ou o ambiente universitário ou uma pequena leva de jornalistas com poderosos contatos. Inconformado com a notícia, me subiu aquele tino blogueiro, a mesma vontade que tiveram nossos colegas universitários da Uninorte, quando presenciaram fato similar com seus amigos em época de campanha eleitoral.
O tino já havia me contagiado quando perturbada, uma amiga veio me confidenciar dia desses a intimidação que recebeu do vereador Fausto Souza, por telefone, após ter publicado em jornal alguns fatos sobre o homem, colega dos oprimidos. Também há de se comentar aqui a possível intimidação feita a outro jornalista, Cristóvão Nonato, demitido da TV Cultura após denunciar as condições em que trabalhava para a empresa. Sim, amigos, em tempos de manifestações nas ruas, a impressão é que outra geração nos emprestou o prazer de viver a década de 1960.
- Tu vai publicar no teu blog?, me perguntaram ao telefone.
- Mas isso não é pauta pra blog… Manda isso já pra imprensa!
- Clayton, sabe como é a imprensa! Isso é pauta pra blog.
Sim, mas se não fosse a enxurrada de informações sobre o caso circulando via rede social nesta noite, a imprensa acabaria por se autoflagelar caso deixasse se furar pelo fato. Ainda bem.
Os manifestantes e os capitães camuflados
A tarde mal havia começado ontem, quarta-feira, 6 de maio. Três estudantes secundaristas, identificados facilmente pelo uniforme e materiais escolares, conversavam sob o sol quente habitual da rotatória do Coroado. Perto dali, começavam a estacionar alguns carros da Polícia Militar, preparados mais uma vez para o exercício do poder, com a ajuda certeira de armas, cassetetes, distintivos, sirenes e a poderosa farda cinzenta.
A caminho sabe-se lá de onde, os três estudantes tiveram os passos interrompidos. Um carro da polícia estaciona diante dos secundaristas e começa um diálogo e cavaqueira que já não foi possível escutar. Só era possível observar três pares de olhos assustados, palavras que pareciam descompassadas e nervosas e uma luz vermelha que piscava e piscava. Imagine você, parado em uma calçada de trânsito, fazendo sabe-se lá o quê, e começa a ser abordado por três policiais militares. O assunto pode ser a informação de algum itinerário, ou a gripe suína ou o vídeo da Susan Boyle, mas não neguemos que é fácil nos sentir em posição de um Raphael Souza diante da imprensa amazonense.
No dia anterior, o abuso de poder havia sido pior. O major PM Walter Cruz, conforme Jornal A Crítica, não abriu mão de sua força e domínio para agredir os estudantes em seu direito de expressão na frente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em Porto Velho (RO), nossos colegas estudantes contam fatos ainda mais risíveis se não dramáticos. Além dos pontapés usados aqui, lá houve também spray de pimenta e bala de borracha. O motivo era a baderna que o coletivo estudantil fazia em prol da redução da tarifa e melhoria da oferta e qualidade do transporte coletivo rondoniense.
No final das contas, amigos, seja você contra ou a favor da redução do uso da meia-passagem, os protestos que fazem os alunos no meio das ruas de Manaus são uma manifestação contra o abuso de poder, no caso dos proprietários do sistema de transporte coletivo da cidade. É uma luta que não se começou a enfrentar no feriado de 1º de maio, mas todos os dias. Em sala de aula, a batalha contra o abuso de poder é constante e diário. Em todos os instantes temos a necessidade de colocar uma posição que não pode ser passiva diante de todos as ações que são voltadas contra nós, nossos direitos e nossa liberdade de pensamento.
Já são dez mil estudantes aderindo a manifestação e sentindo nas mãos o poder de provocar opinião, caos na cidade e manchete nos jornais. Isso é bom. Mas desculpem-me o pessimismo, a lógica neoliberal que nos circunda tem o poder que é maior e inimaginável. De alguma forma ou de outra, pagaremos o que queremos abrir mão, da forma totalitária e invisível com a qual os poderosos sempre agiram. E, concordo com Andrés, alguns desses poderosos estão por aí, parando o trânsito, camuflados como cobras e lagartas nos campus da Ufam, aqui ou em Brasília, levantando cartazes e batendo em nossos ombros.
ASSUNTOS PARA LEMBRAR
Na falta de tempo e disponibilidade para dissertar sobre outros assuntos, aqui vai um espaço bem pequeno para fazer algumas lembranças antes que elas caem no esquecimento.
Somos todos atores
O diretor brasileiro Augusto Boal tem mais para falar aos cidadãos que aos artistas das artes cênicas. Responsável pela “deselitização” do teatro, seria primoroso se alguns de nossos teatreiros se identificassem com um pontinho sequer do Teatro do Oprimido. Por enquanto, pensam já na próxima edição da nossa festividade anual, que premia os espetáculos mais apreciados entre os críticos e academicistas de arte. E o público que tínhamos aqui, digo sempre, se esvanece ante o poderio televisivo.
O Avesso
Já faz um tempinho, o Bufão está com outro endereço. Agora, ele também faz parte de O Avesso, uma revista eletrônica que merece ser apreciada pelos internautas amazonenses. A ideia e o convite foi de Ismael Benigno, que escreve para o blog O Malfazejo. Como já me habituei ao novo endereço, já começo a difundir: www.oavesso.com.br/obufao. Estou indeciso, confesso, se abro mão deste endereço. Por enquanto valem os dois.
Conclamação aos discentes enfastiados

Padeci em uma tarde desta semana de uma de minhas últimas participações em reunião de departamento de curso como representante discente. Devo dizer que é uma excepcional experiência, daquelas que nos fazem ganhar o dia. Professores são testados no âmago de seu humor e vemos aflorar sentimentos ao extremo, seja de gargalhadas ou queixas, denúncias, gritarias, piadas divertidas ou inoportunas, sofrimentos, tormentos e uma procura incessante dos docentes, em seus largos bolsos, por uma incomensurável pílula de paciência.
Um parêntese para a falta de tempo para o blog. Abri esta página na intenção de prestar um depoimento acerca de algumas eventualidades pelas quais passei durante a última semana, incluindo a mostra e o festival de videodança. Mas por um pedido de uma docente com o comportamento meio esquizofrênico e por conta de algumas imagens que se firmam agora em minha cabeça, é impossível pensar em outro assunto se não este do qual trato agora. Fico devendo outros textos.
Por intermédio deste blog e com a segurança de que muitos docentes desconhecem tal ferramenta, faço um conclamação a todos os estudantes que estiverem encostados ao léu nas pilastras da academia, macambúzios pelo cancelamento da aula por conta da extraordinária reunião de departamento. Procurem vocês o local de tal reunião, chamem de lado os representante discentes, e entrem na sala, participem. A reunião é gratuita e aberta a qualquer viva alma. A única restrição é fingir ausência quando o chefe pedir a contagem de votos.
A convocação é a todos os estudantes universitários com a disposição de tempo e paciência, independente do curso, pois o modelo de reunião que explicitarei aqui foi atestado por professores de outros departamentos. A prova é que docente e discente são os mesmos em qualquer lugar sob quaisquer circunstâncias. Desconfiem da boa vontade. Alguns realmente o têm, os outros a usam como subterfúgios. Pontuações e grana estão a todo instante no subtexto das falas expressas nessas reuniões. Sim, lucro, colegas. Já me disseram que é impossível lutar contra a privatização da universidade, uma vez que os professores já a fizeram.
Cuidado, muito cuidado com as gargalhadas inoportunas, aquelas que surgem em nossas bocas de maneira espontânea e involuntária. Alguns professores não conseguem evitar, sequer alunos. A alternativa que uns amigos usam é desviar a atenção por uns instantes com palavras cruzadas, rabiscos na agenda, mensagem no celular para o colega a três carteiras de distância, bilhetinhos e conversa paralela. E como há conversa paralela! Você se sente emocionado e aliviado quando, numa aula comum, um professor desses lhe pede para fazer silêncio.
Vão me perguntar, provavelmente, o motivo pelo qual poderiam surgir essas gargalhadas debochadas e involuntárias durante uma reunião de departamento. Prefiro que vocês próprios se certifiquem na garantia que meu conclame não seja em vão. Uma dica: prepare os papeizinhos ou o Coquetel no momento da leitura dos planos de aula. Ou melhor, muito melhor, prepare sua voz, expresse, denuncie, reclame. Essa será a sua única oportunidade, colega, de fazer frente ao proveito de poder que muitos usam no atual modelo de ensino no país. Dessa vez o professor não estará em posição de comandante, assistindo à sua ineficaz vontade de se expressar. Lá estará em seu círculo, e será um reles como todos somos, e terá comportamento às vezes um tanto perturbante quanto o nosso quando em aula.
Para lembrar Chaplin
Já faz três dias completou 120 anos o nascimento de Charles Chaplin. E já que não temos a boa televisão para fazer essa justa lembrança, a nós, amantes, resta-nos fazer por intermédio da Web.
Para Chaplin, “cada dia que se passa sem um riso é um dia perdido”. O Bufão espera contribuir com a assertiva do artista, postando uma cena de um de seus vídeos (e algumas frases que gosto) àqueles que estiverem em seus afazeres fatigados, sonolentos e retardados. Assim, animamos ao menos o resto de carcaça que sobrou desse legendário personagem.
P.S.: Havia postado que 120 anos era aniversário de morte de Chaplin. Besteira. Ele morreu em 1977. Já corrigi.
Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade.
Há uma coisa tão inevitável quanto a morte: a vida.
Entre sectos, barbies e vampiros, venceu a Márcia
Àqueles que ainda desconfiam que a universidade não é um mundo mitológico, de onde surgem as ideias complexas e metas de vida que nunca usaremos em nossa existência, peço para fazer uma rápida análise desse último processo eleitoral pelo qual passou a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Mais de dez mil eleitores, em um universo de 28 mil pessoas aptas a votar, interromperam suas atividades ontem para exercer seu direito ao voto ante as urnas eletrônicas distribuídas na Ufam. Parte dessas pessoas deixou para mais tarde a tarefa tediosa e habitual de manter a máquina acadêmica. Os sectos aproveitaram suas últimas oportunidades de campanha para acicatar os calouros e os indecisos.
Os transeuntes, coitados desprovidos de partidarismos, observavam de longe a transformação do ambiente universitário numa Cidade de Deus às vésperas da eleição petista. Estes não conseguiam ao menos seu direito de desfilar pela instituição sem ter colado em suas roupas os adesivinhos de bárbie amazônica e sol de bundinha.
Uma professora ontem, ao meu lado, esforçava-se na tentativa de conceder uma entrevista à imprensa, desviando a atenção das vaias alienantes e gargalhadas debochadas. Mais cedo, a comissão eleitoral implorava aos desavisados nos mega-fones, o cumprimento do regimento.
Não adianta meus caros. Já suspeitava de que a democracia é uma construção mitológica de esquerdistas e neoliberais. Agora confirmo que também aquelas molduras douradas de missão/visão que vemos nas paredes da universidade não passam de cercaduras. Na comemoração de seus 100 anos, a Ufam prova que é lendária, e legendária.
Vivo na universidade o mesmo estorvo do meio artístico. Tudo o que aprendemos de ruim, nos debates nas salas jurássicas da universidade, sobre as corruptelas, sobre as pressões ideológicas de veículos, partidos e políticos, todos os reclamos que fazemos sobre as eleições municipais, estaduais, federais, vemos acontecer à nossa frente no ambiente acadêmico.
Não adiantam os argumentos, ou as aulas de filosofias e teorias sobre a reflexão crítica. Vence a eleição quem ganha no grito – e quem chama partidários para gritar mais alto. O problema é que até agora os acadêmicos não sabem como funciona uma gestão administrativa acadêmica. Pensam que elegem o novo reitor ou a reitora, como elegeram o Amazonino Mendes, o Serafim Corrêa, o Eduardo Braga.
Vi mais nessa eleição que na anterior. Houve cultos, vampirismos, apelos, PC do B x PSTU, dedo na cara e uma comissão eleitoral cuja comandante é vilã de novela mexicana: mesmo quando ausente deste mundo perespiritual, daria trabalho até a policiais, que, fatigados, teriam de enumerar uma lista interminável de suspeitos. (Rebusquei as palavras para não fazer apologia).
O grito mais alto desta última eleição foi o berro feminino. E por pouco. Menos de 1% do eleitorado universitário determinou a vitória para a candidata Márcia Perales. Vamos averiguar se o mesmo secto usará seu berrafones e adesivos para rezingar na sala de reitoria na busca de seus direitos e cargos. Esperamos que não seja necessário.
Mostra de Videodança
O Calouro Mariposa, e outras mensagens
Graças ao WordPress, é possível verificar que meu post sobre o salto de qualidade no curso de jornalismo na Ufam está com um acesso bem crescente e súbito nessa semana. Provavelmente, então, há calouros encontrando meu blog. Deixo a eles três mensagens.
Primeiro: sejam todos muito bem vindos. Se leram o post sobre as mudanças no curso de jornalismo da Ufam, já devem estar sabendo que são vocês, alunos do módulo 1, os primeiros a darem um passo muito importante para a qualidade do curso. Mas para isso, não basta esse projeto. É necessária a vigilância cotidiana desse aperfeiçoamento. Cada manhã perdida para uma viagem à universidade deve ser recompensada. Cobrem de si, da instituição e dos docentes essa recompensa. Não percam tempo. Quatro anos passa rápido. Sabemos disso, amigos.
É provável que o sistema modular aproxime o ensino de gradução no jornalismo daquilo que tivemos no Ensino Médio. Esqueçam. É uma vida nova daqui para diante. É o começo de um amadurecimento que não é somente profissional. Não estudem o jornalismo como se estuda a matemática. Fizemos a escolha por uma profissão com o intuito de vivermos prazerosamente e felizes.
Há muito ainda o que dizer. Outros poderão fazê-lo. Por isso, aproximem-se dos colegas veteranos, do Centro Acadêmico (Cucos) e não se inibam com a longa distância entre a sala de aula e o departamento. Termino aqui porque nunca fui de dar conselhos e acho que nunca escrevi um texto tão chato em toda a minha vida.
As outras duas mensagens estão abaixo. Uma dica do Cucos (o cartaz – participem), e um texto que escrevi há um tempo, pouco depois de ingressar na faculdade.
O CALOURO MARIPOSA
Renato estava dormindo antes de cair da árvore e ver-se transformado em uma horrenda mariposa. Seu corpo era tão belo quanto o de uma borboleta, só não havia apreciado suas asas velhas e enrugadas. E por uma lastimosa sorte, eram as asas que auferiam maior visibilidade.
Quando se encontrou com as outras mariposas, sentiu que deveria ter aproveitado mais a vida enquanto imaturo. Engraçado ele ter aquela visão pois, uma vez larva, ele invejava com intemperança o voar das aves e dos insetos. Renato parecia não ter noção de que aquele momento era o mais aguardado em toda a sua vida insignificante. Insignificante porque antes ele não tinha tanto a fazer sem as amplas possibilidades proporcionadas por aquelas asas.
Escolhi relatar a síntese da história de uma mariposa na falta de melhor inventividade para misturar temas como maturidade e ingresso à universidade. Quis fazê-lo em um único texto porque não há feitio que torne longa a distância entre calouro e maturidade. Usar o inseto como ilustração me surgiu por causa da leitura de A Metamorfose. Não sei ao certo qual era a intenção de Kafka ao escrever história tão bizarra, mas me imaginei quando calouro no momento em que Gregor Samsa acordou transformado em um gigantesco inseto.
Os hábitos alimentares mudaram, assim como as amizades, nossas trajetórias, entre outras coisas. Tudo isso após o ato de escolha da profissão, o primeiro da vida adulta. E como seria diferente se a escolha fosse outra – ou se permitisse que outros a fizessem. O vislumbre que ainda está guardado em minha memória emotiva desde o primeiro dia de calouro confunde-se com o medo de começar a tomar decisões. Nossas ações não são mais as mesmas quando compreendemos que, agora, somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar.
O que nos diferencia de Renato – e nos aproxima de Gregor – é o fato de que muitos demoram a perceber a metamorfose – ou talvez ainda nem a tenham sofrido. Nas salas da universidade, ainda esperam a solução dos problemas acadêmicos surgir como um fruto na árvore.
Graças a essa discussão, entendi porque muitos não conseguem adaptar-se ao meio acadêmico: é imaturidade. Procurem essas pessoas e descubram como levam suas vidas e descobrirão que não estou mentindo. A universidade deve ser vista como exercício. O vislumbre dos calouros logo será aniquilado se a universidade for compreendida de forma inequívoca, em uma unidade academicista.
Se voltar a historieta da mariposa para explicar melhor minha tese, diria que Renato logo descobriria que o voar das aves e dos insetos é um trabalho monótono, árduo e enfadonho. Mas é somente por meio dele que Renato descobriria os caminhos adequados para o seu bem-estar. E no final, vai adorar ter a capacidade de voar e ser invejado pelos lagartos.

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