Leia esse post na página do Bufão na revista O Avesso.

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Devo ter faltado algumas aulas importantes no curso de jornalismo, porque o ponto do meu cérebro onde são formadas minhas opiniões está em clima de samba do crioulo doido, de modo que peço socorro. Estão comentando aí que a Petrobras está violando o “sigilo dos órgãos de imprensa”, e digo isso com uma pitada de sorriso mordaz na ponta da boca, pois sempre achei que sigilo e imprensa fossem palavras completamente antagônicas.

O fato que cito tem relação com a criação do blog Fatos e Dados, da Petrobras. Pela primeira vez algo aconteceu nessa Comissão Parlamentar de Inquérito que nos fizesse lembrar quem era o alvo dos investigadores, se não o PT, o Governo e os oposicionistas. A assessoria da Petrobras decidiu criar um blog para publicar as perguntas off que os jornalistas enviam para a empresa, assim como o posicionamento “politicamente correto” da Petrobras ante as reportagens que veem na mídia, com direito a divulgação via twitter.

tintinreporterParece que os colegas jornalistas do Globo e da Folha de S. Paulo ficaram insanos da vida quando viram suas perguntas publicadas, e as respostas reenviadas, para todo mundo ver. É certo que é exagero meu gritar contra a existência de sigilo de órgãos da imprensa. (Muitos aqui deveriam executá-la para preservar o nome de nossos amigos jornalistas ameaçados). Mas, professores de jornalismo, socorro, não me explicaram esse troço de perguntas off.

Na prática do jornalismo, quando a fonte menciona o nome “off”, meus ouvidos acendem aceleradamente e ganho interesse pela reportagem. A vontade é de publicar, e, sendo informação, gravo e publico. É engraçado perceber como as funções agora se invertem e não há mesmo mocinho e vilão nessas contendas corriqueiras entre assessor de comunicação e jornalista. Vi nas salas de aula uma briguinha tola que acusavam RP’s de “omissores” dos fatos, e também os jornalistas pela agonia de publicá-las a todo custo. Essa discussão continua. Dia desses presenciei uma parecida.

Os blogs, já diziam nessa época de sua disseminação, eram ótimas ferramentas para que jornalistas publicassem seus textos off, suas matérias censuradas, etc. Arrisco-me a dizer que parece que a Petrobras (me perdoem se outra empresa já fez isso antes) quer virar uma página da teoria do jornalismo, e ser alvo de discussões nas aulas de ética. Preciso participar desses debates pois meu cérebro necessita de opiniões alheias.

Desculpem minha ignorância, nem conheço muito a linha editorial desses jornais, e pouco sei sobre as discussões que envolvem a cobertura da tal CPI. Mas me parece que a Petrobras, que não é burra, quis experimentar uma carapuça nos jornalistas paulistas, frustrados da vida. E parece que a roupa serviu.

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Sete dias depois e nada de profecia concretizada. Nenhum telefonema com chamados estranhos, água transbordando em televisão, escada, árvore, nada. Desculpem o post repetitivo, mas trabalhando na Associação dos Docentes da Ufam (Adua), e ainda que monografia, Baião de Dois e maratona Lost tenham preenchido o meu final de semana, é impossível me distanciar dos fatos relacionados à agressão em sala de aula – cometida já faz uma semana, tema do último post.

A alguns curiosos que me perguntam notícias que a Adua tem em relação ao caso, basta acessar a página da entidade na internet (merchan básico). Para resumir, vou relatar brevemente, com o tempo que as atribulações me permitem, um pouco dos desdobramentos e repercussões que todos estão aflitos para saber.

Verifiquei hoje cedo que o ator que interpretou a Samara Aziz (versão Amy Winehouse, conforme apontou meu amigo Fábio no Twitter), durante ato público de sexta-feira, passa bem e não sofreu atentados surpreendentes em suas caminhadas rotineiras nas noites do Centro de Manaus, e sim, está com os dentes mantidos no lugar.

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Os diretores da Adua, mais o estudante que vos fala, também gozam de perfeita saúde e o dia na universidade parece ter sido tão corriqueiro quanto sempre o foi, sem água, sem telefone. Mas não dá pra criar teorias conspiratórias relacionando isso ao caso Aziz. Só não posso passar notícias do anônimo internauta V de Vendeta por segurança e ignorância. Só sei que a comunidade no Orkut “Porrada na Samara“, criada pelo sujeito, não parece ter mobilizado rapidamemte a comunidade universitária, em suas manifestações politicamente corretas de paz e amor ao próximo.

O reitor da Ufam continua em Brasília e participou de uma grande condecoração, no Senado Federal, que homenageou a universidade pelo seu centenário entre outras flores. Qualquer encaminhamento em relação aos problemas e mazelas da instituição, ele manda dizer que passou o bastão para um de seus pró-reitores. Aqui na Ufam, o reitor em exercício Edmilson Bruno promete ligar para o reitor amigo a fim de saber se ele vai fazer, uma semana depois, uma bendita notinha pública contra o atentado na universidade.

Sobre a repentinamente mal-amada Samara, parece que esta se esvaneceu. Em reunião da reitoria com professores, foi acertado que uma Comissão de Inquérito da Ufam será convocada hoje, por meio de portaria prometida pelo reitor em exercício, para resolver o futuro da garota na instituição. Os alunos, entretanto, querem tomar para si essa decisão. Há quem diga que ela passou para a faculdade Martha Falcão (para graça do jornalismo local, ela vai pra outro curso: Direito). A próxima manifestação, se ainda sobrar o calor pela expressividade anti-Aziz, será nos corredores da faculdade particular.

E na imprensa local, destaco dois artigos. Um, de autoria do professor Aldisio Filgueiras, conseguiu de alguma forma passar pelo crivo dos olhos do Amazonas Em Tempo e será fixado nas paredes da universidade. A outra é do colega do primeiro, o escritor Márcio Souza. Ele compara Samara Aziz a qualquer outro deliquente, por compartilhar o mesmo cinismo, truculência e impunidade de um menino que brinca com metralhadoras. Ele pede para fechar as portas da Ufam caso o fato da agressão fique impune, uma vez que estará comprovada a ausência de liberdade de cátedra da instituição. Alguns alunos já pensaram em preparar, para qualquer dia desses, uma cruz enterrada em frente à Ufam, com o epitáfio: “Aqui jaz uma universidade”.

P.S.: De presente os cartazes que tanto pediram…

(mais…)

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Começo a sentir uma ligeira vantagem na arte de comandar um blog. Como se não bastasse a visibilidade que ele vem me oferecendo como um finalista de jornalismo, me ligam com a oferta de uma “pauta de blog”:

- Já está sabendo?

- Oi. Alô, sabendo o quê?

- Tô ligando pra saber se tu já tá sabendo.

Me explicou rapidamente algo em relação à Ufam, estudantes, e já me veio uma resposta pronta sobre a manifestação. Respondi que não estive na última reunião, não estava sabendo.

- Mas põe no teu blog!

E então me explicou direito uma informação que, realmente, não poderia se adequar no molde de uma pauta comum em relação a alguns jornais que lemos. Não é à toa que o fato, ocorrido há pouco, já está em diversos blogs de jornalistas locais. Em época ainda de redemocratização, em que a censura toma formas diferenciadas, invisíveis a olhos ingênuos, crua e maldosa, a “pauta de blog” é um conceito que já deveria estar nos mais modernos livros de comunicação. E os alunos do primeiro período do referido curso, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), já estão cientes da demanda, e conferiram com os próprios olhos.

Em uma das primeiras aulas da disciplina Tópicos Especiais de Jornalismo, um dos assuntos do professor Gilson Monteiro era a censura, os desmandes dos coronéis ante aos meios de comunicação de nossa provinciana cidadezinha baré. Logo depois veio a abordagem prática, com direito a uma visita acadêmica à delegacia de polícia lá perto. Resumindo: o que me contaram as testemunhas do fato – fiz o exercício da apuração – a sobrinha do vice-governador Omar Aziz assim que escutou a crítica feita pelo professor ao tio durante a aula, demonstrou a quem quisesse conferir a sua insatisfação. Seja pelo sentimento de desrespeito, seja pelo faro jornalístico de foquinha recém-nascida, ou por orientações, ou pela vontade do desabafo, a aluna não receou sua futura imagem em sala de aula, nem o recado no Orkut: “o respeito põe os dentes no lugar”, e ligou para o pai, reclamando.

Um tempo depois estavam o pai e o tio Amin Aziz com o segurança, no auditório, para demonstrar a diferença do domínio entre professor e político na base da pancada. Socou o professor Gilson, sem poupar os alunos que estavam presentes, ou o ambiente universitário ou uma pequena leva de jornalistas com poderosos contatos. Inconformado com a notícia, me subiu aquele tino blogueiro, a mesma vontade que tiveram nossos colegas universitários da Uninorte, quando presenciaram fato similar com seus amigos em época de campanha eleitoral.

O tino já havia me contagiado quando perturbada, uma amiga veio me confidenciar dia desses a intimidação que recebeu do vereador Fausto Souza, por telefone, após ter publicado em jornal alguns fatos sobre o homem, colega dos oprimidos. Também há de se comentar aqui a possível intimidação feita a outro jornalista, Cristóvão Nonato, demitido da TV Cultura após denunciar as condições em que trabalhava para a empresa. Sim, amigos, em tempos de manifestações nas ruas, a impressão é que outra geração nos emprestou o prazer de viver a década de 1960.

- Tu vai publicar no teu blog?, me perguntaram ao telefone.

- Mas isso não é pauta pra blog… Manda isso já pra imprensa!

- Clayton, sabe como é a imprensa! Isso é pauta pra blog.

Sim, mas se não fosse a enxurrada de informações sobre o caso circulando via rede social nesta noite, a imprensa acabaria por se autoflagelar caso deixasse se furar pelo fato. Ainda bem.

3631A tarde mal havia começado ontem, quarta-feira, 6 de maio. Três estudantes secundaristas, identificados facilmente pelo uniforme e materiais escolares, conversavam sob o sol quente habitual da rotatória do Coroado. Perto dali, começavam a estacionar alguns carros da Polícia Militar, preparados mais uma vez para o exercício do poder, com a ajuda certeira de armas, cassetetes, distintivos, sirenes e a poderosa farda cinzenta.

A caminho sabe-se lá de onde, os três estudantes tiveram os passos interrompidos. Um carro da polícia estaciona diante dos secundaristas e começa um diálogo e cavaqueira que já não foi possível escutar. Só era possível observar três pares de olhos assustados, palavras que pareciam descompassadas e nervosas e uma luz vermelha que piscava e piscava. Imagine você, parado em uma calçada de trânsito, fazendo sabe-se lá o quê, e começa a ser abordado por três policiais militares. O assunto pode ser a informação de algum itinerário, ou a gripe suína ou o vídeo da Susan Boyle, mas não neguemos que é fácil nos sentir em posição de um Raphael Souza diante da imprensa amazonense.

No dia anterior, o abuso de poder havia sido pior. O major PM Walter Cruz, conforme Jornal A Crítica, não abriu mão de sua força e domínio para agredir os estudantes em seu direito de expressão na frente da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em Porto Velho (RO), nossos colegas estudantes contam fatos ainda mais risíveis se não dramáticos. Além dos pontapés usados aqui, lá houve também spray de pimenta e bala de borracha. O motivo era a baderna que o coletivo estudantil fazia em prol da redução da tarifa e melhoria da oferta e qualidade do transporte coletivo rondoniense.

No final das contas, amigos, seja você contra ou a favor da redução do uso da meia-passagem, os protestos que fazem os alunos no meio das ruas de Manaus são uma manifestação contra o abuso de poder, no caso dos proprietários do sistema de transporte coletivo da cidade. É uma luta que não se começou a enfrentar no feriado de 1º de maio, mas todos os dias. Em sala de aula, a batalha contra o abuso de poder é constante e diário. Em todos os instantes temos a necessidade de colocar uma posição que não pode ser passiva diante de todos as ações que são voltadas contra nós, nossos direitos e nossa liberdade de pensamento.

Já são dez mil estudantes aderindo a manifestação e sentindo nas mãos o poder de provocar opinião, caos na cidade e manchete nos jornais. Isso é bom. Mas desculpem-me o pessimismo, a lógica neoliberal que nos circunda tem o poder que é maior e inimaginável. De alguma forma ou de outra, pagaremos o que queremos abrir mão, da forma totalitária e invisível com a qual os poderosos sempre agiram. E, concordo com Andrés, alguns desses poderosos estão por aí, parando o trânsito, camuflados como cobras e lagartas nos campus da Ufam, aqui ou em Brasília, levantando cartazes e batendo em nossos ombros.

ASSUNTOS PARA LEMBRAR

Na falta de tempo e disponibilidade para dissertar sobre outros assuntos, aqui vai um espaço bem pequeno para fazer algumas lembranças antes que elas caem no esquecimento.

Somos todos atores

O diretor brasileiro Augusto Boal tem mais para falar aos cidadãos que aos artistas das artes cênicas. Responsável pela “deselitização” do teatro, seria primoroso se alguns de nossos teatreiros se identificassem com um pontinho sequer do Teatro do Oprimido. Por enquanto, pensam já na próxima edição da nossa festividade anual, que premia os espetáculos mais apreciados entre os críticos e academicistas de arte. E o público que tínhamos aqui, digo sempre, se esvanece ante o poderio televisivo.

O Avesso

Já faz um tempinho, o Bufão está com outro endereço. Agora, ele também faz parte de O Avesso, uma revista eletrônica que merece ser apreciada pelos internautas amazonenses. A ideia e o convite foi de Ismael Benigno, que escreve para o blog O Malfazejo. Como já me habituei ao novo endereço, já começo a difundir: www.oavesso.com.br/obufao. Estou indeciso, confesso, se abro mão deste endereço. Por enquanto valem os dois.

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Padeci em uma tarde desta semana de uma de minhas últimas participações em reunião de departamento de curso como representante discente. Devo dizer que é uma excepcional experiência, daquelas que nos fazem ganhar o dia. Professores são testados no âmago de seu humor e vemos aflorar sentimentos ao extremo, seja de gargalhadas ou queixas, denúncias, gritarias, piadas divertidas ou inoportunas, sofrimentos, tormentos e uma procura incessante dos docentes, em seus largos bolsos, por uma incomensurável pílula de paciência.

Um parêntese para a falta de tempo para o blog. Abri esta página na intenção de prestar um depoimento acerca de algumas eventualidades pelas quais passei durante a última semana, incluindo a mostra e o festival de videodança. Mas por um pedido de uma docente com o comportamento meio esquizofrênico e por conta de algumas imagens que se firmam agora em minha cabeça, é impossível pensar em outro assunto se não este do qual trato agora. Fico devendo outros textos.

Por intermédio deste blog e com a segurança de que muitos docentes desconhecem tal ferramenta, faço um conclamação a todos os estudantes que estiverem encostados ao léu nas pilastras da academia, macambúzios pelo cancelamento da aula por conta da extraordinária reunião de departamento. Procurem vocês o local de tal reunião, chamem de lado os representante discentes, e entrem na sala, participem. A reunião é gratuita e aberta a qualquer viva alma. A única restrição é fingir ausência quando o chefe pedir a contagem de votos.

A convocação é a todos os estudantes universitários com a disposição de tempo e paciência, independente do curso, pois o modelo de reunião que explicitarei aqui foi atestado por professores de outros departamentos. A prova é que docente e discente são os mesmos em qualquer lugar sob quaisquer circunstâncias. Desconfiem da boa vontade. Alguns realmente o têm, os outros a usam como subterfúgios. Pontuações e grana estão a todo instante no subtexto das falas expressas nessas reuniões. Sim, lucro, colegas. Já me disseram que é impossível lutar contra a privatização da universidade, uma vez que os professores já a fizeram.

Cuidado, muito cuidado com as gargalhadas inoportunas, aquelas que surgem em nossas bocas de maneira espontânea e involuntária. Alguns professores não conseguem evitar, sequer alunos. A alternativa que uns amigos usam é desviar a atenção por uns instantes com palavras cruzadas, rabiscos na agenda, mensagem no celular para o colega a três carteiras de distância, bilhetinhos e conversa paralela. E como há conversa paralela! Você se sente emocionado e aliviado quando, numa aula comum, um professor desses lhe pede para fazer silêncio.

Vão me perguntar, provavelmente, o motivo pelo qual poderiam surgir essas gargalhadas debochadas e involuntárias durante uma reunião de departamento. Prefiro que vocês próprios se certifiquem na garantia que meu conclame não seja em vão. Uma dica: prepare os papeizinhos ou o Coquetel no momento da leitura dos planos de aula. Ou melhor, muito melhor, prepare sua voz, expresse, denuncie, reclame. Essa será a sua única oportunidade, colega, de fazer frente ao proveito de poder que muitos usam no atual modelo de ensino no país. Dessa vez o professor não estará em posição de comandante, assistindo à sua ineficaz vontade de se expressar. Lá estará em seu círculo, e será um reles como todos somos, e terá comportamento às vezes um tanto perturbante quanto o nosso quando em aula.

image Já faz três dias completou 120 anos o nascimento de Charles Chaplin. E já que não temos a boa televisão para fazer essa justa lembrança, a nós, amantes, resta-nos fazer por intermédio da Web.

Para Chaplin, “cada dia que se passa sem um riso é um dia perdido”. O Bufão espera contribuir com a assertiva do artista, postando uma cena de um de seus vídeos (e algumas frases que gosto) àqueles que estiverem em seus afazeres fatigados, sonolentos e retardados. Assim, animamos ao menos o resto de carcaça que sobrou desse legendário personagem.

P.S.: Havia postado que 120 anos era aniversário de morte de Chaplin. Besteira. Ele morreu em 1977. Já corrigi.

 

Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade.

 

Há uma coisa tão inevitável quanto a morte: a vida.

 

 

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Àqueles que ainda desconfiam que a universidade não é um mundo mitológico, de onde surgem as ideias complexas e metas de vida que nunca usaremos em nossa existência, peço para fazer uma rápida análise desse último processo eleitoral pelo qual passou a Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Mais de dez mil eleitores, em um universo de 28 mil pessoas aptas a votar, interromperam suas atividades ontem para exercer seu direito ao voto ante as urnas eletrônicas distribuídas na Ufam. Parte dessas pessoas deixou para mais tarde a tarefa tediosa e habitual de manter a máquina acadêmica. Os sectos aproveitaram suas últimas oportunidades de campanha para acicatar os calouros e os indecisos.

Os transeuntes, coitados desprovidos de partidarismos, observavam de longe a transformação do ambiente universitário numa Cidade de Deus às vésperas da eleição petista. Estes não conseguiam ao menos seu direito de desfilar pela instituição sem ter colado em suas roupas os adesivinhos de bárbie amazônica e sol de bundinha.

Uma professora ontem, ao meu lado, esforçava-se na tentativa de conceder uma entrevista à imprensa, desviando a atenção das vaias alienantes e gargalhadas debochadas. Mais cedo, a comissão eleitoral implorava aos desavisados nos mega-fones, o cumprimento do regimento.

Não adianta meus caros. Já suspeitava de que a democracia é uma construção mitológica de esquerdistas e neoliberais. Agora confirmo que também aquelas molduras douradas de missão/visão que vemos nas paredes da universidade não passam de cercaduras. Na comemoração de seus 100 anos, a Ufam prova que é lendária, e legendária.

Vivo na universidade o mesmo estorvo do meio artístico. Tudo o que aprendemos de ruim, nos debates nas salas jurássicas da universidade, sobre as corruptelas, sobre as pressões ideológicas de veículos, partidos e políticos, todos os reclamos que fazemos sobre as eleições municipais, estaduais, federais, vemos acontecer à nossa frente no ambiente acadêmico.

Não adiantam os argumentos, ou as aulas de filosofias e teorias sobre a reflexão crítica. Vence a eleição quem ganha no grito – e quem chama partidários para gritar mais alto. O problema é que até agora os acadêmicos não sabem como funciona uma gestão administrativa acadêmica. Pensam que elegem o novo reitor ou a reitora, como elegeram o Amazonino Mendes, o Serafim Corrêa, o Eduardo Braga.

Vi mais nessa eleição que na anterior. Houve cultos, vampirismos, apelos, PC do B x PSTU, dedo na cara e uma comissão eleitoral cuja comandante é vilã de novela mexicana: mesmo quando ausente deste mundo perespiritual, daria trabalho até a policiais, que, fatigados, teriam de enumerar uma lista interminável de suspeitos. (Rebusquei as palavras para não fazer apologia).

O grito mais alto desta última eleição foi o berro feminino. E por pouco. Menos de 1% do eleitorado universitário determinou a vitória para a candidata Márcia Perales. Vamos averiguar se o mesmo secto usará seu berrafones e adesivos para rezingar na sala de reitoria na busca de seus direitos e cargos. Esperamos que não seja necessário.

Sem tempo para postar, me resta fazer divulgações:

arte DIFUSÃO DIGITAL 2009

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arte renan

Graças ao WordPress, é possível verificar que meu post sobre o salto de qualidade no curso de jornalismo na Ufam está com um acesso bem crescente e súbito nessa semana. Provavelmente, então, há calouros encontrando meu blog. Deixo a eles três mensagens.

Primeiro: sejam todos muito bem vindos. Se leram o post sobre as mudanças no curso de jornalismo da Ufam, já devem estar sabendo que são vocês, alunos do módulo 1, os primeiros a darem um passo muito importante para a qualidade do curso. Mas para isso, não basta esse projeto. É necessária a vigilância cotidiana desse aperfeiçoamento. Cada manhã perdida para uma viagem à universidade deve ser recompensada. Cobrem de si, da instituição e dos docentes essa recompensa. Não percam tempo. Quatro anos passa rápido. Sabemos disso, amigos.

É provável que o sistema modular aproxime o ensino de gradução no jornalismo daquilo que tivemos no Ensino Médio. Esqueçam. É uma vida nova daqui para diante. É o começo de um amadurecimento que não é somente profissional. Não estudem o jornalismo como se estuda a matemática. Fizemos a escolha por uma profissão com o intuito de vivermos prazerosamente e felizes.

Há muito ainda o que dizer. Outros poderão fazê-lo. Por isso, aproximem-se dos colegas veteranos, do Centro Acadêmico (Cucos) e não se inibam com a longa distância entre a sala de aula e o departamento. Termino aqui porque nunca fui de dar conselhos e acho que nunca escrevi um texto tão chato em toda a minha vida.

As outras duas mensagens estão abaixo. Uma dica do Cucos (o cartaz – participem), e um texto que escrevi há um tempo, pouco depois de ingressar na faculdade.

 

cucos

 

O CALOURO MARIPOSA

Renato estava dormindo antes de cair da árvore e ver-se transformado em uma horrenda mariposa. Seu corpo era tão belo quanto o de uma borboleta, só não havia apreciado suas asas velhas e enrugadas. E por uma lastimosa sorte, eram as asas que auferiam maior visibilidade.

Quando se encontrou com as outras mariposas, sentiu que deveria ter aproveitado mais a vida enquanto imaturo. Engraçado ele ter aquela visão pois, uma vez larva, ele invejava com intemperança o voar das aves e dos insetos. Renato parecia não ter noção de que aquele momento era o mais aguardado em toda a sua vida insignificante. Insignificante porque antes ele não tinha tanto a fazer sem as amplas possibilidades proporcionadas por aquelas asas.

Escolhi relatar a síntese da história de uma mariposa na falta de melhor inventividade para misturar temas como maturidade e ingresso à universidade. Quis fazê-lo em um único texto porque não há feitio que torne longa a distância entre calouro e maturidade. Usar o inseto como ilustração me surgiu por causa da leitura de A Metamorfose. Não sei ao certo qual era a intenção de Kafka ao escrever história tão bizarra, mas me imaginei quando calouro no momento em que Gregor Samsa acordou transformado em um gigantesco inseto.

Os hábitos alimentares mudaram, assim como as amizades, nossas trajetórias, entre outras coisas. Tudo isso após o ato de escolha da profissão, o primeiro da vida adulta. E como seria diferente se a escolha fosse outra – ou se permitisse que outros a fizessem. O vislumbre que ainda está guardado em minha memória emotiva desde o primeiro dia de calouro confunde-se com o medo de começar a tomar decisões. Nossas ações não são mais as mesmas quando compreendemos que, agora, somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar.

O que nos diferencia de Renato – e nos aproxima de Gregor – é o fato de que muitos demoram a perceber a metamorfose – ou talvez ainda nem a tenham sofrido. Nas salas da universidade, ainda esperam a solução dos problemas acadêmicos surgir como um fruto na árvore.

Graças a essa discussão, entendi porque muitos não conseguem adaptar-se ao meio acadêmico: é imaturidade. Procurem essas pessoas e descubram como levam suas vidas e descobrirão que não estou mentindo. A universidade deve ser vista como exercício. O vislumbre dos calouros logo será aniquilado se a universidade for compreendida de forma inequívoca, em uma unidade academicista.

Se voltar a historieta da mariposa para explicar melhor minha tese, diria que Renato logo descobriria que o voar das aves e dos insetos é um trabalho monótono, árduo e enfadonho. Mas é somente por meio dele que Renato descobriria os caminhos adequados para o seu bem-estar. E no final, vai adorar ter a capacidade de voar e ser invejado pelos lagartos.

Por conta da ausência de ares inspiradores, deixo aos leitores do blog um texto que não é meu. Há um outro motivo. Faço a tentativa, e espero não me frustrar, de intigá-los a ser amantes das artes cênicas. O texto que escolhi é um trecho de A Cantora Careca, de Eugene Ionesco. O autor faz parte da lista de dramaturgos europeus do teatro do absurdo (que por motivos óbvios, outros preferem chamar de anti-teatro). São peças que tratam da realidade de forma um tanto inusitada.

Às vezes nos faltam tempo, disposição, vontade (e coragem) para assistir aos nossos espetáculos. Para não perdemos o tino para apreciar essa arte, basta-nos uma breve leitura. Se acompanhada, melhor ainda.

 

CENA 4 – O casal Martin

 

(O Sr. e a Sra. Martin sentam-se um em frente ao outro, sem dizer uma palavra. Sorriem timidamente).

O MARTIN: Desculpe minha senhora, mas parece, se não estou enganado, que já a conheço de algum lugar.

A MARTIN: A mim também senhor, parece-me que já o conheço de algum lugar.

O MARTIN: Será que já não a vi em Manchester, por acaso, minha senhora?

A MARTIN: É bem possível. Eu nasci em Manchester! Mas eu não me lembro muito bem senhor; não poderia afirmar se já o conheço ou não.

O MARTIN: Meu Deus, como é engraçado! Eu também nasci na cidade de Manchester, Minha senhora!

A MARTIN: Como é engraçado!

O MARTIN: Que coisa engraçada! Só que eu, senhora, eu vim de Manchester faz mais ou menos cinco semanas!

A MARTIN: Que coisa engraçada! Que coincidência interessante! Eu também, senhor, eu vim de Manchester faz mais ou menos cinco semanas!

O MARTIN: Eu vim no trem das oito e meia da manhã, que chega a Londres às quinze para as cinco, minha senhora.

A MARTIN: Como é engraçado! Como é interessante! Que coincidência! Eu também tomei o mesmo trem, senhor, eu também.

O MARTIN: Meu Deus, como é engraçado! Pode bem ser então, minha senhora, que eu a tenha visto no trem!?

A MARTIN: É bem possível, não é incrível, é plausível, e depois por que não? Mas eu não lembro senhor.

O MARTIN: Vim de segunda classe, minha senhora. Não existe segunda classe na Inglaterra, mas assim mesmo eu vim de segunda classe.

A MARTIN: Como é interessante, como é engraçado e que coincidência! Também eu, senhor, vim de segunda classe.

O MARTIN: Como é engraçado! Talvez nos tenhamos encontrado na segunda classe, senhora minha.

A MARTIN: É bem possível, e pode muito bem ter acontecido, mas eu não me lembro direito caro senhor!

O MARTIN: Meu lugar era no vagão número oito, décimo sexto compartimento, cara senhora!

A MARTIN: Que coisa engraçada! Meu lugar também era no vagão número oito, décimo sexto compartimento, caro senhor!

O MARTIN: Eu tenho uma filhinha; minha filhinha mora comigo, minha cara senhora. Ela tem dois anos, é loira, tem um olho branco e um olho vermelho; é muito bonitinha e se chama Alice, minha senhora.

A MARTIN: Que coincidência esquisita! Eu também tenho uma filhinha de dois anos, é loira, com um olho branco e um olho vermelho; ela é muito bonitinha e também se chama Alice, meu caro senhor!

O MARTIN: Como é engraçado e que coincidência! É esquisito! Vai ver que é a mesma, senhora minha!

A MARTIN: Como é engraçado, é bem possível, senhor meu!

O MARTIN: Então, minha senhora, creio que não há mais dúvidas: Já nos vimos em outra ocasião e a senhora é minha própria esposa… Elizabeth, eu te encontrei finalmente!

A MARTIN: Donald – é você, darling!

http://susanacosta.files.wordpress.com/2008/03/teatro2.jpg?w=237&h=302Os artistas de teatro do Amazonas já têm novos representantes durante o biênio 2009-2010. A gestão do ator e diretor Sérgio Lima entregou as chaves da Federação de Teatro do Amazonas (Fetam) à chapa Ação Teatral no Amazonas, encabeçada pelo xará Sérgio Uchoa. A entrega ocorreu hoje, logo após a eleição, no encerramento do 8º Congresso de Teatro no Amazonas, no Ideal Clube. A chapa venceu a preferência dos artistas por uma diferença de três votos para o concorrente Nivaldo Motta, que obteve 29 votos. A chapa de Wagner Melo conseguiu apenas 9 votos.

Fazem parte da nova gestão os atores Douglas Rodrigues, na vice-presidência; Fabiene Priscila, na secretaria geral; Cleinaldo Marinho, na diretoria de administração financeira; Kid Mahal, na diretoria de marketing e relações institucionais; João Fernandes, na diretoria de formação técnica e pedagógica; Sílvio Romano, na diretoria de planejamento e projetos culturais e Koia Refkalefsky, na direção de ações para o interior.

Foi a primeira vez que a categoria optou pelo voto secreto. “É uma oportunidade para experimentar. Todos os congressos já fazem isso”, disse o diretor e dramaturgo Jorge Bandeira, membro da comissão eleitoral. Cada grupo de teatro sem débitos financeiros com a Fetam teve a oportunidade de escolher dois delegados para votar. Durante o congresso, que começou ontem, às 9h, também foi elaborado o novo estatuto da entidade.

Fazem parte das propostas da nova gestão para o primeiro semestre, a legalização da Fetam, a busca por apoios em entidades públicas e a organização de um evento para o dia do teatro, comemorado no dia 27 de março. Também é meta da gestão a inserção dos eventos da Fetam nos calendários das secretarias municipal e estadual de cultura. “Uma federação sem relação com o poder público não manda”, disse João Fernandes quando a chapa foi questionada, durante debate, sobre a independência da entidade perante os órgãos públicos.

Apesar de não conseguirem votos suficientes, as chapas concorrentes se dispuseram a entregar ao presidente recém-eleito suas propostas lançadas durante a campanha. “Não fomos uma chapa de cargos, mas de propostas. Então, vamos trabalhar todos juntos”, disse o diretor Wagner Melo. Nivaldo Mota partilha a mesma opinião. “Esperamos crescer e resolver nossos problemas na medida do possível”, disse.

marciosouza

imageVocê vale cada centavo que recebe? O questionamento me chamou a atenção quando li matéria na Superinteressante, edição de fevereiro. Também pretendo usar a mesma linha de raciocínio para citar outro texto relevante da mesma edição da revista, sobre vocação e talento. Adianto logo que não é leitura para agradar gregos e troianos, judeus e palestinos. Ainda assim escrevo e já vou me habituando a feedbacks acalorados.

A IBM já está desenvolvendo na prática um projeto que visa catalogar 50 dos 300 mil funcionários da companhia. A meta é medir a produtividade de cada empregado. O serviço pode ser útil para promoções, seleções e, se perpetuarem os tempos de crise, demissões. Nunca fui fã de números, mas aviltou-se em mim um desejo insopitável de que essa não fosse somente mais uma ideia conspiratória e sem futuro divulgada pela Superinteressante. E começo a pensar que, neste caso, os números podem ser grandes amigos.

Você deve conhecer, leitor, mais de dezenas de pessoas que exercem alguma atividade sem talento para tal. Pior que a falta de talento, é a falta de interesse. Você conhece, leitor, e se a carapuça couber, não se sinta acuado de eu estar falando de você. Encontramos milhares de pessoas bem remuneradas e infelizes no serviço, isso não é balela. O escritor Márcio Souza escreveu em artigo no jornal A Crítica, condenando especificamente o corpo administrativo do município de Manaus:

“Estive na administração federal por 12 anos e vi muita excentricidade burocrática, mas nada parecido com as sandices da burocracia municipal desta sofrida capital: é assessor jurídico que não sabe nada de direito administrativo, é secretária que não sabe escrever, é um administrador que não sabe abrir um processo ou prestar contas. Tudo isso engessa e paralisa a administração da cidade, beneficiando os parasitas”.

Eu generalizaria o que o autor escreveu, sem pena. Os parasitas não estão apenas na administração municipal. Estão nas escolas, nas universidades, nas redações dos jornais, em qualquer departamento. Gosto muito de citar dados científicos para comprovar meus argumentos. Mas como não os tenho nas mãos por ora, e na tentativa de fugir um pouco da religião, publico o que prefiro chamar de teoria conspiratória da infelicidade.

funcionarioFelicidade é coisa que talvez se descubra no clímax da maturidade. (Sim, isso tem tudo a ver com o texto que você se propôs a ler). Felicidade é coisa que todos queremos, mas ninguém sabe direito o que é porque não podemos tocá-la. E os parasitas querem conquistá-la assim, no toque.

Digo por experiência pessoal que as escolas não preparam seus parasitinhas a conquistar a felicidade além do toque. Em muitos lares, até mesmo a educação doméstica segue o princípio inadequado. Crescemos com o objetivo do acúmulo, da sensação imediata. Daí os empregados que padecerão com a tal máquina da medição de produtividade. Porque milhares de pessoas se formam com o objetivo do acúmulo, e não valem o que produzem. Não consegue acompanhar minha viagem? Então responda: entre dois empregos, qual você escolheria? É o dilema que vejo todos os dias, e dou risadas com o critério das pessoas. E ainda sou julgado. Para muitos, felicidade é balela de gerações jurássicas.

Outra constatação, e afirmo que é opinião pessoal baseada numa observação muita imatura, é que os parasitas, esses que baseiam suas felicidades no acúmulo, são os que já têm bastante acumulado. Vejam os concursos públicos, é uma briga injusta. Entra quem não precisa. São pessoas que preferem viver sem riscos. Quem ganha o risco é a nação, que emprega uma série de talentos que vão trabalhar para operacionalizar a máquina estatal, que não avança, estagna, não promove o crescimento econômico. Por outro lado, vejo pessoas sem renda, que nasceram sem condições de avaliar o futuro, que passaram por outras escolas e batalhas, e resistem para fazer o que gostam, porque sabem que a recompensa será muito maior.

funcionario2Por isso, vou me travestir agora de conselheiro budista ou autor de livro de autoajuda, e propor a todos uma análise bem caprichada de seus verdadeiros talentos. A aptidão para determinadas atividades está em nosso DNA, diz a Superinteressante. O sucesso da vocação está na união da aptidão e do interesse. Faça logo sua autoavaliação antes que cheguem os tais numerati com suas máquinas. Exerça seu talento. Desenvolva sua aptidão porque ela tem uma data-limite.

Ao descobrir que está desempenhando uma atividade para o qual não tem talento, caia fora. Assim, você não atrasa o país, promove o avanço e no final das contas estará mais perto de ser feliz. Se tiver dificuldade para descobrir se aquilo faz parte ou não da sua vida, então falte um dia o trabalho e reflita em casa. Pior que levar sermão do chefe e dos demais funcionários, é descobrir que, afinal de contas, você não fez falta.

PS.: As imagens são de uma animação bem legal que encontrei na net: http://www.localhost.nl/stuff/flash/office.swf

Deu vontade de informar os autores dos primeiros parágrafos divulgados aqui, anteriormente, em O Bufão. Quero recomendar as histórias que ainda não leram, sobretudo os romances quase poéticos de Adriana Falcão e a dramaturgia maravilhosa de Ilo Krugli, autores que, possivelmente, não deu para identificar. Os livros são raros, mas eu empresto para quem se interessar.

 

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

A Hora da Estrela, Clarice Lispector

 

Quando Gregor Samsa acordou, certa manhã, de sonhos perturbadores, ele se viu transformado, na sua cama, em um inseto gigantesco.

A Metamorfose, Kafka

 

Naquela sexta-feira dos ventos, 7 de julho, logo que a tarde caiu, os acontecimentos começaram a acontecer feito loucos na vida de Luna Clara, justo na vida dela, uma menina que tinha uma vida meio besta.

Luna Clara e Apolo Onze, Adriana Falcão

 

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela,  por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

A Cartomante, Machado de Asis

 

- Lá vem a Compadecida! Mulher em tudo se mete!

O Auto da Compadecida, Ariano Suassuna

 

Eis aí vão algumas páginas escritas, às quais me atrevi a dar o nome de romance. Não foi ele movido por nenhuma dessas três poderosas inspirações que tantas vezes soem aparar as penas dos autores: glória, amor e interesse.

A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo

 

- Senhoras e senhores, vocês vão ver e ouvir a história do mistério do fundo do pote… Ou de como nasceu a fome… Já amanheceu? Falta pouco… Já é hora de contar a minha história… A minha história nasce… e morre como o sol… e se cala quando aparece a primeira estrela. Entrem, amigos… Eu conto esta história todos os dias… Ela é da época em que nem tudo o que existia precisava ser explicado. Existia o mistério, e nós, os cegos, é que cuidávamos dele. Hoje em dia, o mistério se acabou e perdemos o ofício. Eu sou o cego Setembrino.

O Mistério do Fundo do Pote, ou De Como Nasceu a Fome, Ilo Krugli

 

Alguém devia ter caluniado Josef K., pois, sem que tivesse feito mal algum, ele foi detido certa manhã.

O Processo, Kafka

 

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era rica e formosa. Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante. Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira seu fulgor?

Senhora, José de Alencar

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