Uma hipótese científica no rol de trabalhos sobre as mulheres e o patriarcalismo já criou um rebuliço entre os conservadores da atual era da informação: o instinto materno não existe. Ou melhor, para a filósofa francesa Elisabeth Badinter, esse sentimento insubstituível da mãe por suas crias, e obscuro no campo científico, é uma construção ideológica de uma sociedade patriarcal. A declaração pode soar exagerada e típica de um discurso de esquerda que não encontra eco nas comunidades. E também não seria difícil imaginar que fatores coercitivos atentaram-se para que tal pesquisa não encontrasse adeptos.
Será difícil e estarei longe de conseguir avaliar e discutir a questão do amor materno. Mas percebemos que existem diversas forças preocupadas com o bem-estar do patriarcalismo no mundo pós-industrial. Um pequeno exemplo, que me incitou ao post, está em reportagem que circula nas páginas da revista Veja dessa semana. “Elas voltam ao lar”, é o título da matéria, ilustrada na primeira página por uma mãe feliz e dedicada, ao lado de seus três filhos e da legenda “criada para ser independente”.
A reportagem conta a história de algumas mulheres que largaram suas vidas profissionais, todas com bons currículos na mão e trajetória ascendente, para se dedicar a um outro “trabalho”, em tempo integral e hora extra: cuidar dos filhos. É um recorte que a revista faz de uma geração de mães da atualidade. Mas, como é de praxe da revista o juízo por diversos atributos simbólicos de comunicação, essas mulheres são ditas como “libertárias”. Imaginem que coisa maluca é isso!
De certa forma percebemos nos discursos que se formam nos corredores, na mídia, nos bate-papos, uma tentativa louca da valorização da mulher que se dedica aos filhos. Um dia na TV, parei para assimilar. Está nas propagandas, no romance fraternal da novela da tarde, na garota que sofre bruscamente as consequências do aborto na novela das oito. A Rede Globo, por sinal, está veiculando a campanha “Mãe, lê pra mim?”, do Instituto Pró-Livro. A campanha tem vistas ao estímulo da leitura na infância, um exercício a ser aguçado pelas mães, como se os pais fossem acéfalos ou inábeis no ato de contar histórias. Desse ponto de vista, não seria o Estado, mas as mães as responsáveis pelo problema do analfabetismo que assola o país.
É uma coisa doida de se ver, mas o fruto dessas manifestações simbólicas e opressoras é perceptível em colegas nossas, amigas de geração, que correm na contramão de uma era em que os movimentos sociais batalham pelo fortalecimento do papel da identidade no processo de mudanças sociais e políticas do mundo. A gravidez e/ou o casamento vem se tornando, de novo (ou ainda é?) uma guinada descomunal de uma trajetória de vida. Largam a universidade com a justificativa do matrimônio. O noivo, é claro, usa a mesma justificativa para ascender em uma vida profissional. E mais pilhérico de tudo isso é que algumas mães dessa geração, divorciadas, com os filhos já crescidos e sustentados por merrecas de pensão alimentícia, carregam na consciência o peso de uma vida profissional esquecida. São mulheres com mais de 30 anos na batalha por uma vaga na universidade ou no mercado.
Por isso pensemos se não é hora de reconsiderar o mito do amor materno, por mais que a tese me deixe de sobrancelhas arqueadas e que ninguém queira negar o amor de suas mães. O fato é que Elisabeth Badinter vai além disso, provocando uma discussão que parece essencial para os movimentos em defesa da cultura do sujeito. Ela tira das mães a culpa por deixarem seus filhos com as babás, ou na creche, rasgando o rótulo de desumana ou coisas do tipo. É um amor, que não é nato, mas conquistado, e que é usado como armadilha desde o século XIX para que as mulheres não caiam no discurso feminista e libertário de suas conquistas nos espaços. É mesmo uma construção ideológica, ou seria uma armadilha divina?



Me digam se não é fantástico o riso que se alastra por meio da cultura digital trash. Fazer graça ganhou na internet um cunho social, político, de mobilização, e uma ligeira sensação de exercício de cidadania. O ato de criticar o Galvão, o jornalismo da Rede Globo e a revista Veja via mobilizações cibernéticas parece requisito essencial para angariar determinado status de partícipe do processo de mudanças sociais no mundo pós-moderno perante os intelectuais da rede. É uma crítica, mas digo que entro na onda. (Odeio a Veja, por exemplo).
Saramago queria ser lembrado pelo cão das lágrimas. Disse isso em algumas ocasiões, fazendo referência ao cachorro de Ensaio Sobre a Cegueira. É engraçado e habitualmente espantoso a escolha de Saramago, dentre tantos personagens polêmicos de sua obra. E confesso ter criado uma simpatia enorme pelo imundo cãozinho que limpa nossas lágrimas com sua língua, num gesto quase extinto de afabilidade de um mundo de cegos. E também compartilho a crítica do português: o cão de Meirelles era bonitinho demais.


O Bufão não desejou bom natal nem ano novo de sorte aos leitores por pura falta de criatividade deste escritor. Em casa, no recesso natalino, assistindo a Ana Maria Braga (sim, perdão), tive um medo dinossáurico de que eu caísse na mesma banalidade dos votos da loura. Muito embora eu acredite que a internet ainda possua um dom especial de fazer com que as pessoas se comuniquem e desejem votos perpétuos com a mais pura honestidade. Sim, pois com dezenas de pessoas conectadas, em seus afazeres ou lazeres, aquela vontade de teclar um feliz ano novo para aquele amigo ou amiga on-line tem um ar de sinceridade muito maior que os desejos que se trocam ao acaso por pares no corredor de um prédio.
Há quem alerte os seres estressados que vagam pelos corredores do funcionalismo público ou pelos confins da burocracia universitária a necessidade de um dia de descanso. Faço um alerta a mais aos amigos deste blogueiro: olha bem onde tu pretendes descansar a cabeça! As donas de casa, ou os donos, ganharam mais a minha simpatia e respeito quando tive a oportunidade ímpar de participar de uma reunião de condomínio. Sim, o “ímpar” é ironia. Pior que compartilhar aquela experiência é a necessidade de contentar-me de que se tratava do lugar onde eu agora morava, não muito mais que três meses.

Um dia o amazonense vai ser cobaia de alguma experiência intergaláctica, sendo a única espécie humana da Terra imune aos efeitos do aquecimento global. A tese não é minha. É de Márcio Souza, em Fim do Terceiro Mundo, salve engano. Outro dia escutei teorias conspiratórias não tão esdrúxulas em roda de conversa em meio a três ventiladores – um deles já quebrado: Manaus sofrerá, muito breve, impacto parecido com o boom da Zona Franca. Em vez de imigração, o contrário.
Este post se dedica a um caso ocorrido ontem ainda. A Universidade Federal do Amazonas, cheia de acadêmicos que vieram conhecer a instituição por conta da SBPC ou Enapet, é observada pela primeira vez ao vivo por uma série de turistas entusiasmados. A caminho da Ufam, cada grupo de 10 árvores que era visto no ônibus que percorria o Centro, a Cachoeirinha ou o Japiim, era apontado por uma turista “cara de pesquisador”, que indagava: “chegamos à universidade”?
Parece que os colegas jornalistas do Globo e da Folha de S. Paulo ficaram insanos da vida quando viram suas perguntas publicadas, e as respostas reenviadas, para todo mundo ver. É certo que é exagero meu gritar contra a existência de sigilo de órgãos da imprensa. (Muitos aqui deveriam executá-la para preservar o nome de nossos amigos jornalistas ameaçados). Mas, professores de jornalismo, socorro, não me explicaram esse troço de perguntas off.